Da prisão dos sinais

Queridas irmãs, queridas amigas

Deixemos que este texto ecoe no nosso coração e nos transforme, deixemos que este texto germine no nosso coração apesar deste registo irritado de Jesus, mas nós leitores conseguimos compreender quer a irritação, quer a ironia que anda por estas linhas.

Mateus abre o capítulo XII falando de Jesus começando a por a nu a oposição de Jesus à letra da lei. 

Mateus, sem dúvida, quer que cada um de nós não seja como estes fariseus que são cegos, não aceitaram ver um sinal de Jesus, não aceitaram ver em cada pessoa erguida, em cada pessoa aberta, em cada pessoa liberta, recusaram-se ver aí um sinal, porventura queriam um sinal que fosse cómodo para eles, que fosse mais confortável para eles, que não implicasse o conforto de outros.

Talvez o que Mateus nos quer dizer, querido leitor, não peças sinais, vê não peças sinais.

Eu estou certo que nós em fases da nossa vida, porventura no início do nosso caminho, pedíamos sinais e pedimos sinais. O desespero transforma-nos, possivelmente muitos de nós pedimos sinais nesta ou naquela fase da nossa vida, porventura se esta fase não corresponder a uma fase de aflição talvez possamos olhar com alguma distância o que é isto de pedir sinais.

Os fariseus queriam que Jesus rasgasse os céus, contrariasse as leis da natureza, contrariasse as leis da nossa fragilidade e dissesse que, ele é Deus, e que a história é isto, e a finalidade é aquela e pronto... não havia nada a duvidar.

Pois Jesus quer-nos livres e um sinal destes esmaga a nossa liberdade, óbvio que se alguém fizesse uma coisa destas seria todo-poderoso, nem precisaria que eu dissesse acredito ou não acredito, estava tudo resolvido e Jesus quer-nos livres e isto não é pouco.

Pedir sinais ou pediram um sinal agora como pediam os fariseus, também significa que até agora não contou, até agora não valeu, até agora não foi a sério. Significa que queremos prescindir das nossas dúvidas, queremos prescindir do caminho percorrido, queremos prescindir da história de amor que construímos em sombras e em silêncio. E Jesus não quer isto para os seus discípulos, a nossa história de seguimento de Jesus constrói-se com dúvidas, constrói-se com ausências, constrói-se e percorremos esse caminho silêncio, em questão, em aberto. E pedir sinais é extraordinário, significa que nós não queremos saber do que é comum, do que é ordinário, do que faz parte da ordem do tempo e do dia, significa que o quotidiano não nos diz nada e não é espaço de salvação e não é espaço da presença de Deus, não é tempo de presença de Deus.

Talvez este texto possa iluminar o coração, dizendo a cada leitor do evangelho, querido leitor foge do extraordinário... Não peças sinais... Olha a tua vida como um sinal, olha  a vida daqueles que tens no coração, aqueles que estão ao teu lado, esses são um sinal! Olha para o teu dia, nas tuas rotinas, naquilo que tu vês e naquilo que te é dado. Isso são os maiores sinais e queremos-te livre para fazeres o teu caminho na leitura desses sinais e na cegueira desses sinais, para que chegues a conclusões no dia que prevês e naquilo que não prevês, a seu tempo...

Queremos responder a este texto, queremos responder a Jesus e a Mateus, não queremos ser como aqueles falsos fariseus,  não queremos ser como esses hipócritas, como Jesus há-de chamar-lhes, queremos aceitar com profunda alegria um Deus que nos quer livres, queremos aceitar com profunda alegria um Deus que não precisa que façamos algo extraordinário para nos relacionarmos com Ele, queremos fazer as pazes com a nossa condição, com a nossa fragilidade, com as nossas dúvidas, com as nossas incertezas, com tudo aquilo de que se reveste o caminho e queremos ver em tudo isso, naquilo a que chamamos vida, queremos ver em tudo isso o Senhor que passa, o Jesus pascal que sempre nos ergue. 

Diz-nos o narrador que Jesus meio fugido, ergueu 

Jesus quer-nos livres e a um sinal destes esmaga a nossa liberdade.

(da prisão dos sinais | breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | semana XVI – Segunda | Lisboa, 19 de Julho de 2021. Êxodo 14,5-18 e Mateus 12,38-42ª)

https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2021/07/19/da-prisao-dos-sinais/

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