Como se o caminho fosse tudo

                                      

Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos 

Que bom que nesta hora nos sintonizamos, a vontade de celebrarmos Páscoa,  a vontade de não ficarmos não  ficarmos na mesma, a vontade de mos abrir-nos, a vontade de nos inspirarmos nestes gestos que repetimos a cada Páscoa, de repartirmos o pão como Jesus repartiu de a sua vida, de inspirarmos a dadiva da nossa vida na dádiva da vida de Jesus que tantos alimentou, que tantos ergueu, tantos trouxe para o centro e por causa disso aqui estamos. 

Estamos no capítulo VI do evangelho de Marcos, os discípulos já começaram a ver pessoas a rejeitarem Jesus, de todos os quadrantes, de todos os feitios.

Os discípulos começam a ver que a mensagem de Jesus aparentemente universal, vai esbarrando em esquemas.

Curioso que a primeira leitura que escutávamos, do profeta Amós, dá-nos conta de uma religião que também ela entra em esquemas. Escutávamos a vida do Santuário de Bétele que se converteu numa máquina de exploração e Amós que parece que hoje nos diz, bem eu só cá vim ver a bola, eu não sou profeta nem filho de profeta, eu só estou a dizer o que vejo e eu só estou a dizer o que Deus me manda dizer. E o que ele diz é no fundo denunciar ima religião exploradora, um regime explorador e de facto naquela altura em que a economia arrebitava no reino do Norte foi cada vez mais evidente que o dinheiro ficava do lado de uns e que a especulação do mercado fazia com que os pobres ficassem ainda mais pobres, e víamos uma classe emergente, cada vez mais rica e a classe do Templo estava muito próxima dessa e confundia-se com essa.

E Amós ficou pasmado com o facto de os que se dizem de Deus não se importarem com o infortúnio, não se importarem com a pobreza, não se importarem com a desgraça, não se importarem com a injustiça, não se importarem com a exploração. 

E sim, de facto a mensagem de Jesus encontra obstáculos, em certa medida os textos de hoje apresentam-nos o contraste do que Jesus diz e da religião que Ele afronta intencional e não intencionalmente. Os discípulos vendo a forma como Jesus vai sendo rejeitado ou vai sendo dificilmente aceite são enviados por Jesus, diz-nos o texto que eles são enviados dois a dois e no tribunal da altura, só um testemunho acreditado por duas pessoas era válido, e em certa medida o "piscar de olho" que nos é dado por Marcos, em certa medida querido leitor, isto chegou ate ti por testemunhas válidas. Eles viram, eles amaram, eles deixaram-se amar e transformar,  e imagina tu chegou até ti, chegou até ti!

O que é que Jesus apresenta aos seus discípulos ou o que é que Jesus dá aos seus discípulos? Dá-lhes um caminho.

E porque é que Jesus insiste na imagem do caminho? E porque é que a nossa religião, antes de nos chamarmos religião, era conhecida como CAMINHO? Porquê caminho, e porque e que devemos voltar a dizer caminho? E porque é que não devemos desistir da palavra caminho, e porque é que devemos inspirar toda a nossa vida no caminho, e porque é que não devemos desistir de fazer da nossa vida caminho? 

Em primeiro lugar há muitas evidências,  nós somos caminho, nós somos percurso, nós atravessamos tempo, nós somos atravessamos por tempo, nós atravessamos espaços, nós somos processo. Obviamente que somos CAMINHO e há uma espécie de fatalidade ao falarmos de caminho, a sucessão do calendário, a sucessão do tempo mostra-nos que estamos em processo, mostra-nos que estamos em caminho, a parte óbvia talvez seja fácil de passarmos à frente. Mas o que é que queremos saborear para lá do óbvio? Jesus bem que podia ter dito aos seus discípulos, sigam a estrada do Sul, quando chegarem ao deserto do Negueve voltem para trás e sigam para Este e... Sigam para Oeste, podia ter dito uma indicação, podia ter dado uma pista, podia ter dito não vão para ali  nem sequer entrem acolá... Deu-lhes um caminho,  a parte que não é óbvia do caminho é isso de não sabermos bem a rota, não termos nem mapa nem bússola, temos um pedido de Jesus para seguirmos em caminho!

Jesus diz aos seus discípulos uma coisa segundo o narrador, deu-lhes poder sobre os espíritos impuros, para alguns de nós, a maior parte de nós, se calhar muito racionais passamos isto à frente, não sabemos o que é que isto quer dizer, se calhar alguns mais metafísicos hão-de imaginar aqui a existência dos deuses maus que coabitam com a existência do Deus bom, porque mesmo Deus existindo nós não conseguimos desgrudar de dualismos, outros veriam aqui doenças psiquiátricas, doenças mentais,  vamos... Antes disso tudo a religião dos judeus, a religião judaica é uma questão de pureza e impureza e todos os dias e a toda a hora e todos os gestos e todos os passos se revestem dessa fronteira de pureza e de impureza, não podes ir a determinados sítios porque ficas impuro, tornas-te impuro e para voltares a ficar puro tens de fazer uma data de coisas, que te lavem e rituais de ablução são às  dezenas entre os judeus. Como é que podemos traduzir esta frase de Jesus que a única coisa que dá aos seus discípulos é poder sobre os espíritos impuros?

Em certa medida aquele judeu o que disse àqueles judeus foi: ACABOU A IMPUREZA!

Acabou a fronteira entre a pureza e a impureza, somos pra lá da fronteira da impureza.

E o que aqueles discípulos levam como ordem é esta, não há impuros! E isto torna ainda mais ampla a rota podem ir para todo o lado.  A Samaria é impura já podem ir para a Samaria, Portugal também é impuro, podem vir para Portugal, a nossa terra aos olhos da pureza judaica também é impura, não foi eleita nem escolhida, não foi prometida por Deus a ninguém, podem vir cá. Que bom, que bom, não fosse esse mandato de Jesus nós não nos sentíamos comunidade, não nos sentíamos povo, não nos sentíamos família. A grandeza  da única coisa que Jesus deixa aos seus discípulos é esta: acabou a impureza, acabou a impura! Que bom se nos lembrarmos desta frase a toda hora. Sempre que nos distinguimos entre puros e impuros estamos a borrifar-nos para a única coisa que Jesus pediu. E o que é que Jesus pede como mandato aos seus discípulos para o caminho, no caminho nós dependemos das condições atmosféricas, nós dependemos de quem nos abre a porta para pernoitarmos, nós dependemos se alguém nos dá água ou não, nós dependemos, dependemos, dependemos... E na mochila levamos aquilo que podemos levar para não  dependermos tanto. Se na próxima aldeia não nos derem água ainda tenho meia garrafa que dá para mim e dá para ti e é isto que nós levamos na mochila, a possibilidade de não dependermos tanto. E Jesus insiste tanto para que os discípulos dependam exageradamente, nem dinheiro leveis, nem muda de roupa leveis, nem um segundo par de sandálias, não leveis nada nada. Salva-se o cajado que ajuda a defenderes-te dos animais ferozes e ajuda a descansar aqui e ali, de resto dependei, dependei...

Jesus o que pediu aos seus discípulos foi: Caminho, acabou a impureza e dependei uns dos outros.

E esta frase atravessou séculos e chegou até nós para construirmos Comunidade, para construirmos Igreja.

E, queridas irmãs, queridos irmãos não é o Papa que faz a Igreja, (e ele coitadinho ainda está hospitalizado) não são os bispos que fazem a Igreja, não são os padres que fazem a Igreja, tu és Igreja fazes Igreja,  tu que és Igreja dás forma ao sonho de Jesus. Como? Sentindo-te em caminho, acabando com a fronteira entre pureza e impureza e sabendo-te dependente.

Possa este texto ser a nossa constituição,  possa este texto lembrar-nos o que é que andamos aqui a fazer, possa este texto dizer porque é que vimos aqui regularmente, possa este texto, a partir de hoje, reconfigurar a Igreja nos teus gestos, ao teu alcance, ao alcance do teu braço.

Que este texto te recorde que vivemos em caminho, o mesmo é dizer, nem sabes se vais chegar à meta, não sabes... Nem sabes bem onde é a meta. 

Viver em caminho significa isto, vivemos um passo atrás de outro e aquilo que julgamos certo, temos de colocar uma interrogação e sim, viver em caminho e construir uma igreja em caminho é  deixar questionar aquilo que eu dou como certo

Talvez aquilo que vês como mais certo, não seja, talvez aquilo que dás como mais seguro não esteja. Imagina tu que até a imagem de Deus que tens pode não existir, a imagem que constróis de Deus e cada um tem a sua super originais, pode dar-se que Deus não exista dessa maneira.  Deixemos que Jesus tenha razão sobre nós,  deixemos que o sonho de Jesus, o Seu sonho, se concretize em caminho, abramos as nossas certezas a uma interrogação que Ele nos deixa permanentemente.

Lembremos que vivemos permanentemente em metanoia, em conversão. Os discípulos foram, e diz-nos o narrador, eles não sabiam muito bem o que fazer, o que é que fizeram? Imitaram Jesus e diz-nos o narrador que 0s discípulos pregaram o arrependimento. Esta frase foi a primeira frase de Jesus que Marcos escolheu para abrir o evangelho, com a primeira frase dita em voz alta de Jesus: "Jesus pregou o arrependimento e disse que o Reino de Deus estava próximo" e esse arrependimento é  isso: talvez as nossas certezas não sirvam para muito, talvez devamos rever as nossas certezas  talvez devemos viver em reforma permanente em questão, em processo... Isso é viver em caminho. 

Apresentemos ao Senhor a mesma vontade daqueles discípulos, não sabemos bem o que fazer e por isso queremos imitar Jesus. Vivemos em metanoia e erguemos os mais frágeis, para que todos se sintam semelhantes, para que todos se sintam erguidos e para que todos nos sintamos em caminho.

(como se o caminho fosse tudo - Breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Domingo XV Tempo Comum B | transmissão online, Hospital de Santa Marta, Lisboa, 10 de Julho de 2021. - Amós 7,12-15; Efésios 1,3-14 e Marcos 6,7-13.)

https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2021/07/11/como-se-o-caminho-fosse-tudo/

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