Acreditas num Deus que habita a tua fome?

Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos 

Sabemo-nos amigos, sabemo-nos irmãos e nesta hora queremos saborear o que verdadeiramente nos junta, só se senta à volta da mesa quem tem fome.

Vamos há mais poesia além dos alimentos à mesa, partilharmos a vida, abrimos o coração, mas reconhecemos que à mesa todos temos a mesma necessidade e por isso a mesa é o lugar da revelação da semelhança, ricos e pobres todos têm fome. Gente com emprego e sem emprego tem fome. Gente nos lugares de decisão e gente que tem de obedecer a quem decide tem fome, e experimentamos nesta hora a semelhança, experimentamos nesta hora sermos sedentos.

Foram-nos servidos estes textos muito explicitamente à volta do alimento e da fome e nesse binómio da mesa e da fome, aparecia o Deus da Aliança como cuidador. Escutávamos essa página mítica, lendária da presença de Deus com o povo a caminho da liberdade, em processo de liberdade e escutávamos esta história que é para se repetir às crianças e aos adultos, dia após dia, ano após ano, para lembrar a origem do povo para lembrar a identidade do povo de Israel e faz questão de lembrar esta birra: o caminho da liberdade pede persistência. Esta página ficou eternizada neste livro para que tu lembres. Sim, vai chegar a altura em que te apetece voltar para a situação comoda de escravo. E a liberdade exige-te todos os dias e a liberdade dá trabalho e a liberdade consome-te, mas lembra-te que foi para a liberdade que Deus te criou. E isto é o eco que nos vem deste livro do Êxodo, e este é o eco que nos vem do Deus criador do povo, do Deus da Aliança. 

Nós em Jesus continuamos a ver este Deus da Aliança em formas muito desconcertantes. No nosso último encontro à volta desta mesa, escutávamos um texto dos mais marcantes da vida de Jesus, que nós não sabemos explicar o sentido literal e porventura até nem precisamos do sentido literal, celebrávamos a semana passada tantos sentidos que nos vêm daquela multiplicação de pães, um Deus atento às tuas necessidades, um Deus que se faz presente nas tuas necessidades, um Deus que não prescinde do pouco de cada um para ir ao encontro das necessidades de todos, um Deus que habita a nossa necessidade de justiça e de distribuição, e cada um poderá traduzir este gesto em mil formas.

E nós escutávamos este parágrafo de hoje que é mais ou menos a continuidade do da semana passada.

Não sei se se lembram, mas Jesus pirou-se porque queriam fazer dele rei e diz-nos que Ele foi, subiu para a montanha e não se sabe mais nada dele. Os discípulos viram que estava a ficar noite e desceram para os barcos para passarem para Cafarnaum, pelo menos em Cafarnaum tinham as casa deles, Jesus teria lá a sua casa, não é certo talvez seria a casa de Pedro, mas bom era lá o poiso dele e eles foram andando para Cafarnaum sem Jesus e logo depois desta página tão Canã, desta multiplicação de pães que nós nem sabemos o que fazer com ela, João não contente com tamanho prodígio, coloca Jesus a caminhar sobre as águas, para quê,  já estou como o Ricardo Araújo Pereira, que dizia para quê desperdiçar energias e talentos divinos em coisas que não têm assim tanta utilidade, para quê servia estarmos a caminhar sobre as águas fazíamos um quilómetro não estava lá ninguém para nos servir um café, não valia a pena. Mas bom também não precisando do sentido literal deste texto, precisamos de nos lembrar do Deus que habita sobre os medos, que é maior que os teus medos, sendo o mar o lugar de todos medos.

E é precisamente depois este quadro que nos é servido isto e as pessoas que foram saciadas daquele pão que nós não sabemos explicar vêm a correr atrás de Jesus e eu acho que João quer que nós comecemos por nos rir deste texto.

Não sei o que é que vos parece, mas eu olho para estes personagens a correr atrás de Jesus e a pergunta que lhe fazem é como é que chegaste aqui? Como é que escapaste? E enquanto estão a falar com Jesus parece que ainda estão a sacudir as migalhas da barba e logo a seguir vão pedir um sinal. É isto querido leitor, ri-te disto, é bizarro.... Então eles acabam de comer um pão que saciou cinco mil homens a partir de cinco pães e dois peixes e ainda estão a sacudir as migalhas e estão a pedir um sinal. Querido leitor é bizarro isto, tu certamente não pedirias e é basicamente esta a resposta que queremos dar a este texto. 

E queremos estar de acordo que, viver à procura de sinais e sobretudo viver ao ritmo do extraordinário, ao ritmo da exceção às leis naturais, viver com a agenda presa a efeitos especiais é insaciável, é insaciável!

Tal como estes, querido leitor, tal como estes... tu não queres ser assim, pois não? E nós queremos responder a este texto, não Senhor, nós não queremos consumir-te em sinais, nós não queremos devorar-te em sinais e não queremos viver insaciavelmente dependentes dos teus sinais.

O que este texto nos pede querido leitor, aceita um Deus que habita a tua fome, busca um Deus que habita a tua fome.

E cada um saberá escrever um evangelho, cada um saberá escrever uma história de amor de Deus consigo, querido leitor não busques sinais busca um Deus que habita a tua fome. 

Se nós escrevêssemos a nossa biografia nesta hora, estou certo que nos dias mais tristes, nos dias mais pavorosos, nos dias em que nos sentimos sem chão. 

Estou certo que não nos deu prazer algum viver esses dias, mas porventura quando olhamos para trás e quando nos lembramos desses dias acontecerem coisas imprevisíveis, aconteceu nessa altura a presença de alguém que foi a nossa salvação, aconteceu a notícia que alguém trouxe que foi a nossa salvação. Aconteceu uma palavra, um gesto, um silêncio que revelou aquilo que eu tinha para decidir aquilo que eu tinha para fazer e foi isso que nos salvou.

Quando olhamos tantas das nossas obras primas que amamos, desde a pintura, à música, ao cinema, as artes, as nossas obras primas, eu falo pelas minhas, e já agora convido-vos a irdes ver a história das vossas obras primas como é que apareceram, grande parte delas apareceram em profunda contingência, por um triz não chegavam a nós, por um triz não eram feitas, por um triz nada... por um triz, por um triz...

E chegaram-nos obras que nos salvam. E talvez, deixemos ecoar a questão, se o autor estivesse saciado talvez não produziria esta obra. 

Não sendo o desconforto desejável, aceitamos e temos experiência já para isso e temos história para dizer isso, aceitamos que das nossas histórias de desconforto nos superamos, o mesmo é dizer que com a nossa fome erguemo-nos. Tal como hoje, foi a nossa fome que nos tirou de casa e nos trouxe aqui.

Queremos reconciliar-nos com a nossa condição, com a nossa fome, com aquilo que é limitado e nos define e queremos aceitar um Deus que quer viver com estas regras do jogo, que quer viver connosco assim. Não se revela no extraordinário, não se revela em céus abertos, não se revela na satisfação dos meus caprichos, revela-se no silêncio no tempo, na ausência, em presenças e em sinais, que se não abrir bem os olhos, pode dar-se que os sinais de hoje me escapem. Queremo-nos reconciliar com a nossa condição, queremo-nos reconciliar como que nos é pedido no evangelho. 

Qual é o trabalho? Eu digo-vos qual é o trabalho a fazer. 

O trabalho é acreditar em mim, foi o que Jesus disse, o único trabalho que tendes é acreditar em mim, o mesmo é dizer, acreditar em Jesus deve dar muito trabalho, acreditar em Jesus dá muito trabalho e porquê? Porque não está escrito na testa, não está escrito nas nuvens, porque não há um cavalo de asas que nos venha dizer o que quer que seja, porque, porque... 

porque o buscamos escondido, 

porque o buscamos em rostos,

porque o buscamos em circunstâncias, porque Buscamo-Lo no cuidado uns pelos outros.

Seja esta a certeza que levamos desta Mesa, SALVA-NOS A NOSSA FOME!

(acreditas num Deus que habita a tua fome? | breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Domingo XVIII do Tempo Comum B | transmissão online, Hospital de Santa Marta, Lisboa, 31 de Julho de 2021 - Êxodo 16,2-15; Efésios 4,17-24 e João 6,24-35.)

https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2021/08/01/acreditas-num-deus-que-habita-a-tua-fome/

 

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