A alegria de ser possível - Madalena, a Apóstola dos Apóstolos
Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos
Que belo este dia, que bela intuição teve o Papa Francisco em tornar este dia um dia de festa.
Lembramos Maria Madalena, ela vai escapando ao longo
do ano, vai escapando às nossas celebrações e queremos no dia em que a
lembramos de modo particular, queremos fazer deste dia, um dia em que ela que é
a primeira e nos despista com esta primazia, à frente dos apóstolos. Nós esperávamos
que fosse Pedro o primeiro a saber esta notícia, até para se sentir perdoado de
tudo o que tinha acontecido, nós esperávamos João o mais querido dos apóstolos
de Jesus e é Madalena, é Madalena de quem sabemos tão pouco.
Madalena foi a destinatária de uma notícia de vida,
Jesus vivo, talvez porque sabemos pelos evangelhos que ela sabe o que é estar
morta, dela foram retirados sete demónios diz o texto, só quem sabe o que é
estar morto, sabe o que é voltar à vida. Talvez por isso tenha sido a eleita
para compreender uma vida que se emergia, que se erguia, que erguia e talvez
ela que conseguisse dizer por palavras e por gestos a vida que renascia naquela
hora.
Estamos num jardim e bem lembramos o jardim como o
lugar das origens, talvez João nos queira lembrar que aqui recomeçamos todos, é
verdade aqui recomeçamos todos.
Maria Magdala, Maria Magdalena, nós não sabemos bem o
que significa Maria, tem muitas possibilidades de origem o nome, tem muitas
possíveis etimologias, mas para os discípulos de Jesus Maria há-de querer
sempre dizer mãe, há-de querer sempre lembrar a Mãe de Jesus e por isso nos não
queremos prescindir da ligação de Maria a mãe. E por isso queremos nós queremos
olhar para aquele quadro Madalena, em certa medida como um quadro maternal, nós
nascemos neste jardim, nós nascemos com este Jesus erguido e nós nascemos desta
Maria. Se esta Maria não fosse a correr dizer o que tinha acontecido, se os
planos desta Maria fossem outros não sei se estávamos aqui, e queremos aceitar
isto, nós também nascemos desta Maria, esta Maria também é a nossa mãe, também
é a mãe dos discípulos, também é a mãe da Igreja. E sim, nascemos desta mulher
que sabe na própria vida que nada é mais forte do que o amor, que mais forte do
que a morte é o amor como recorda o cântico dos cânticos que lemos na primeira
leitura deste dia, esse cântico tão amoroso, esse cântico que nos recorda que a
vida inteira vivemos para ver Jesus como aqueles dois amantes que no livro
inteiro se cheiram, se sentem, se reclamam e verdadeiramente nunca se
encontram, como nós no nosso caminho de busca de Jesus que vemos como um
espelho, que sentimos a sua presença no rosto de tantos, que entrevemos a Sua
presença entre silêncios e ausências, mas verdadeiramente face a face ainda não
conseguimos falar dele, ainda não sabemos o que é, saboreamos, saboreamos...
Nós nascemos de Maria, nós nascemos de Madalena, nós nascemos dos seus pés ligeiros, nós nascemos das suas dúvidas, nós nascemos da sua fidelidade. Ela confunde Jesus com o jardineiro e reconhece-O com o seu tom de voz, reconhece-O pelo seu nome.
Queremos nós entregar ao Senhor nesta hora as nossas confusões, nós que o confundimos com tantos e nós que confundimos tantos com a Sua presença, nos que O buscamos a vida inteira, nós que O buscamos também nos nossos túmulos e nas nossas perdas, nós que o buscamos nas nossas noites, nas nossas aflições, nós que vemos, nós que vemos escombros, nós que experimentamos túmulos vazios e túmulos por abrir.
Queremos agradecer este dia ao Senhor, queremos agradecer o facto de o novo renascimento, o nascimento da Igreja depender de uma mulher tão frágil como Madalena. Ela sentir-se-ia tão pequena a ser portadora de uma notícia destas e dum recomeço a organizar. Queremos também, nós que nascemos de Madalena, queremos reconhecer isto, a nossa pequenez ante o pedido de Jesus para recomeçarmos, para o Igreja voltar à Galileia. Somos pequenos, mas é possível.
(a alegria de ser possível | Madalena, a Apóstola dos Apóstolos | breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Quinta-feira da semana XVI Lisboa, 22 de julho de 2021. Cântico dos Cânticos 3,1-4 e João 20,1.11-18.)
https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2021/07/22/a-alegria-de-ser-possivel/

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