Vês riqueza na pergunta?

Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos 

O texto de hoje, se é que há dúvidas quanto a isso, o texto de hoje como os textos de cada vez que aqui nos juntamos, são sentidos de maneiras diferentes em cada coração.

Os textos que hoje lemos, particularmente o final do capítulo IV do Evangelho de Marcos, eu estou certo de que cada um o saboreia à sua maneira.

No inicio do capítulo IV, Marcos fez questão de dizer que havia tanta gente ali na praia, e nós guardamos esta no nosso caderninho... boa, Jesus falava na praia!

Estava tanta gente na praia que para Jesus se fazer ouvir, e porque Jesus era um Rabi a quem muitos seguiam, o Rabi pode falar sentado, Ele subiu a um barco e sentou-se... E nós fomos ouvindo o que é que Jesus foi dizendo nestes domingos sentado em cima de um barco. Falou do Reino, falou do Reino como uma semente que é lançada à terra e que cresce, falou do Reino como uma árvore que cresce, que cresce e dá abrigo, falou, falou, falou...

Falou de um semeador, falou da palavra que é semeada no teu coração, falou falou... O dia foi reclinando e diz-nos Marcos e é uma referência temporal, o dia estava a acabar, dispersar-se-ia a multidão e cada um ía para sua casa, mas Marcos dá-nos um detalhe dá-nos uma dica que nós não sabemos bem o que fazer com ela. Jesus está numa margem do lago da Galileia, do lago Tiberíades, do outro lado é uma zona que não interessa a ninguém, não interessava a ninguém.  A zona da Decápole, que são dez cidades impuras, Decápole impuras, não são território dos bons judeus, é terra conspurcada, é terra com forte presença helénica, grega e romana, ocupante. Essa terra, do outro lado do Jordão, a Transjordânia, nesse território da Decápole é aí que começa o V capítulo de Marcos e perecemos logo que é uma terra suja, o primeiro personagem do outro lado do lago a vir ter com Jesus é um homem morto possuído de um espírito impuro, diz-nos o texto, que faz questão de dizer que por ali havia porcos, os judeus não podem ver porcos. Era um território péssimo e nós precisamos deste detalhe para nos interrogarmos. O que é que Jesus foi fazer para o outro lado do lago, o que é Jesus foi fazer para um território sujo no final do dia? O que é que Ele lá foi fazer? Precisamos que esta pergunta fique assim em aberto. O dia estava a declinar e Jesus em vez de querer ir para casa diz: Bora a Decápole, bora aonde não interessa ir e eles anuíram e lá foram.

Grande tempestade, e para sabermos o que é que significa a tempestade, 

foi-nos servido na 1a. Leitura a simbologia do mar, do lugar dos medos, do lugar do desconhecido, do lugar onde não há força, não temos terra firme, não temos ponto de apoio, onde não podemos contar com a nossa força, onde perdemos. E com isso na bagagem saboreemos o que é que se está a passar com os discípulos de Jesus naquela hora. Está-se a meter em quê, o dua está a acabar, pode não correr bem... Estou certo que cada um recebe este texto no coração nas circunstâncias em que está. Não há uma interpretação deste texto, há um milhão de interpretações deste texto. Muitos 

hão-de ver neste texto a sua própria vida e hão-de identificar neste texto grandes tribulações e muitos de nós hão-de encontrar neste texto grandes tribulações, um Deus a dormir, um Deus ausente, um Deus que parece não importar-se. E temos de aceitar esta interpretação porque é o que acontece nesta página, durante muito tempo Jesus está a dormir. Muitos de nós hão-de dizer que mesmo nas maiores tribulações nunca se sentiram sós, nunca se sentiram abandonados, sentiram sempre uma presença de Jesus. Aceitemos porque sim, Marcos também nos quer dizer isto, na maior das tribulações há um Deus que silenciosamente está contigo.

E outros hão-de ver neste texto uma força de um Deus intervencionista, que intervém no nosso perigo, que é capaz de pôr um ponto final naquilo que nos corre mal.

Eu costumo dizer que aceito o meu pastor Nicolas Cage?? que me diz que não acredita num Deus intervencionista. Mas se acreditasse num Deus intervencionista ía pedir-lhe, e essa é das maiores frases de amor que se pode dizer a alguém, ía pedir-lhe que não mexesse em ti, que não mexesse nada, nem num cabelo te tocasse...

E sim, nesta página do Evangelho cabe aquele discípulo de Jesus Que precisa de um Deus intervencionista e cabe aquele discípulo de Jesus que experimenta a falta de intervenção de Deus para a resolução dos nossos problemas. E sintamos que neste texto cabemos todos, neste texto cabem todos is nossos contextos, neste texto cabem todas as nossas circunstâncias. E chegados aqui, somos capazes de nos perguntarmos, o que é que ganhamos em seguir Jesus? Ele que se apresenta ausente, se muitos de nós nos garantem que Ele esteve ausente nos pudores fias da sua vida, o que é que ganhamos em seguir Jesus? O que é que ganhamos em entrar para aquele barco estranho que àquelas horas desconfortáveis segue para terras desconfortáveis... O que é que ganhamos nós?

Vários mestres ao longo da história do cristianismo nos foram dizendo que a maturidade cristã tem de chegar, tem de passar por este ponto, nalgum dia da nossa vida nós temos de dizer a nós próprios, eu sigo Jesus e não ganho nada com isso, eu sigo Jesus e não quero ganhar nada com isso. Num dia da nossa vida devemos tropeçar nesta verdade, porque doutro maneira seguimos Jesus por uma razão? Seguimos Jesus por uma recompensa?

Não será que o seguimos porque sim? Como Ele nos ama porque sim? Afinal o que que nos oferece o cristianismo? Afinal o que é que nos oferece Jesus?

Com esta página do Evangelho o cristianismo oferece-nos perguntas, (repete) perguntas que nos servem de muito, 8nos servem para olharmos a vida e questionarmos a nossa vida com cada vez mais densidade.

Meu Deus, não te importas comigo? Não te importas que morramos todos? É uma pergunta que nos é oferecida neste texto, neste parágrafo do Evangelho. E vamos, Marcos quer dizer que há um Deus que se importa com isso, há um Deus que não quer que tu morras e se experimentamos a certeza da morte biológica, também experimentamos a certeza da eternidade biográfica, da vida que não acaba, da vida que se amplia, da vida que fica na vida dos outros. E sim, querido leitor gostava soubesses que há um Deus que se importa contigo. 

E termina este capítulo IV com a frase, quem é este? Que é este? Quem é este Jesus? E esta pergunta é muito fecunda, deixemos que ela ande connosco. Marcos é tão irónico no capítulo seguinte, quando Jesus chega ao outro lado e vem o pior personagem que podia ir ter com Ele, Marcos coloca na noca dele, O que é que tu tens a ver connosco Jesus de Nazaré? Tu, o Filho de Deus vieste fazer o quê? Vieste para mos perder? Então os mais íntimos de Jesus não sabem quem Ele é e este sujo chama-lhe Filho de Deus? Sim, sim querido leitor é isso, é isso! O cristianismo oferece-te perguntas, e oferece-te perguntas sobre a realidade e a vida e sim, também te oferece esta, como é que quem reconhece Deus é quem eu julgo que está mais distante? O cristianismo oferece-nos perguntas e nos vimos aqui semana a semana agradecer essas perguntas, agradecer um Deus que nos deixa a vida em aberto. Jesus viveu a nossa condição, viveu a nossa fragilidade e nós estamos muitíssimo agradecidos por isso. Só um Deus que vive como nós, com a nossa carne pode ser levado a sério. O Deus dos superpoderes e o Deus caprichoso do Olimpo não precisamos dele para nada. Precisamos desse Deus que experimentou e viver a nossa condição e Salvou com a Sua Carne, Salvou com o Seu Corpo, Salvou com a Sua fragilidade, e prometeu estar presente no nosso corpo, na nossa fragilidade, na forma como amamos, e cada um de forma originais, na forma como nos fazemos presentes, na forma como tocamos, na firma como falamos, na forma como estamos presentes e estamos ausentes, na forma como voltamos... assim manifestamos a presença do Deis de Jesus que parece dormir numa almofada, Ele que dizia que não tinha uma pedra onde reclinar a cabeça. Talvez nos nossos gestos de cuidado, talvez na forma como nos erguemos una aos outros experimentos a presença serena de Jesus ressuscitado, de jesus erguido, que nos quer erguidos.

(vês riqueza na pergunta? Domingo XII do Tempo Comum B - transmissão online, Hospital de Santa Marta, Lisboa, 19 de junho de 2021. Job 38,1-11; 2 Coríntios 5,14-17 e Marcos 4,35-41.)

https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2021/06/20/ves-riqueza-na-pergunta/

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