Família é tudo menos um grupo de iguais
Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos
Que bom que estas palavras nos devolvem o
amor à Palavra, o amor a Jesus e nos aproximam. Que bom que esta Mesa onde
repartimos o Pão e chega sempre para todos nos sintoniza como carentes,
famintos... Que bom que estes gestos ainda que rituais e simbólicos não nos deixam
na mesma. Que oportuno celebrarmos o X domingo do tempo comum com as leituras
que nos são servidas. Nós que dizíamos a semana passada que ao celebrarmos a
Trindade não temos ferramentas nem vontade de saborear o que é isto da
Trindade, queremos sim saborear a obsessão de Deus em sermos família, em
integrar-nos na sua família e quase a dizer-nos que: "escutem, se não é
para formarem uma família não percam tempo, não vale a pena, vão para outro
lado, façam outra coisa..."
Como se a única tarefa do cristianismo
fosse a criação de uma família, a criação de laços para lá da cor da pele, para
lá das crenças de uns e outros, para lá de tudo, para lá das diferenças todas,
ou melhor com as diferenças todas.
E que bom que neste domingo depois desta
obsessão pela família, nos é servido um dos poucos textos dos Evangelhos onde
se fala família de Jesus e é para nós uma pedra no sapato.
Nós, eu pelo menos eu se calhar, tento
buscar nos textos que nos são servidos, domingo após domingo, algum tema que os
possa coser, que os possa unir e se calhar vamo-nos habituando a racionalizar
tudo isto, a encontrar um sentido por de trás disto tudo. Deixemos que pelo
menos no dia de hoje, a liturgia nis recorde, meu querido minha querida,
esquece o tema, qual é o tema da vida? A vida não tem tema, estes textos não
têm temas, é a vida, a vida...
Eles são escritos com amor, a ouvintes
amantes, a uma comunidade de amorosos, são carras de amor e as cartas de
amor não têm tema. Têm a vida inteira despejada com muita ternura, com muito afeto,
têm um coração sem filtros. Acolhamos também esta intuição destes textos, para
criarmos família, para nos sabermos em processo de construção de família é
assim mesmo, é com tudo, é com tudo.
Uma razão que leva à condenação de Jesus
tem que ver com a página que escutámos hoje. De facto, Jesus não aprecia a
obsessão judaica pela pertença ao povo por razão de sangue, Jesus borrifa-se
nisso que é o Centro da geração do povo eleito, segundo a narrativa judaica
Deus escolheu aquele povo entre todos os povos da terra e eles hão-de
multiplicar-se e todas s nações da terra hão-de servi-lo, hão-de servir esse
povo e se não servirem esse povo têm poucas alternativas sendo que uma delas é
ser aniquilado. Vários partidos políticos em Israel levam isto à letra ainda
hoje, Jesus borrifa-se numa questão central, não se trata de prolongar
indefinidamente a multiplicação de um povo por via de sangue, e a rejeição de
outros por via de sangue, Deus é outra coisa e não se mete nestes negócios. E
foi isso que Jesus andou a fazer anos a fio e foi isso que Ele insistiu com os
seus discípulos e é essa a nossa herança, a ponto de, parece de facto desprezar
os próprios da sua casa, eles vão à procura de Jesus que já começa a ser uma
popstar e querem silencia-lo, querem refreá-lo, dizia a tradução de Frederico
Lourenço, queriam refreá-lo, vamos para casa, vamos acabar com isto, já excede,
já estás pra lá.
Jesus borrifa-se nos laços de sangue, não
significa que despreze a mãe, não significa que despreze os lá de casa, eles
hão-de entrar por outra porta, não a porta dos da família, entram pela porta
dos amantes que foi a porta por onde entrou aquela multidão que nem os deixava
comer. De tal maneira que os senhores da religião os donos, os que tinham
descido de Jerusalém para ver o que é que se passava por ali, sobretudo os
escribas vão dizer: mas Ele liberta esta gente toda? Ele acolhe esta gente
toda? Sujos? Ele é o sujo, Ele é o Deus dos sujos! A palavra belzebu
significa: o Senhor do esterco (desculpem a literalidade), o Senhor da sujidade,
o Senhor da imundice, Ele é esse, Ele que acolhe tantos sujos, Ele é o Deus dos
sujos!
Precisamos disto para a tarefa da
construção da família, do sonho de Jesus, nós que ainda herdamos muito de
escriba, ainda herdamos muito da pureza ritual judaica nós que ainda nos
distinguimos entre sujos e limpos, entre os de dentro e os de fora.
Precisamos que este texto nos faça
companhia, precisamos que este texto nos refrie a nós, nos refrie a nós...
Como é que se constrói a família pela qual Jesus e obcecado, que já não é do
sangue, mas de laços do cuidado e de amor?
Talvez não seja como nos era servido na
primeira leitura, no livro do Genesis esse mito de origem, talvez com quatro
séculos antes da presença de Jesus, não pretende explicar coisa nenhuma, pretende
sim saborear, dar um sentido à vida presente, e o autor deparava-se com
trabalhos e canseiras e remetia para um passado mitológico uma harmonia com
Deus e essa harmonia, segundo o autor, foi quebrada porque cada um se quis
safar, cada um quis pensar primeiro em si, porque cada um se fechou para si,
nos seus interesses, no seu conforto, na vontade de ser Deus, na vontade
de se bastar a si próprio. O livro do Genesis não diz como é que foi, sonha com
o que é que queremos ser, nós queremos voltar a essa harmonia, nós queremos
dizer uns aos outros: não, eu não sou o teu Deus, não eu não sou mais do que
tu, não, eu não sou ninguém para dizer que tu estás fora ou que és mais sujo do
que eu, não desculpa, não!
Que o texto que escutávamos do Genesis nos
recorde o sonho que alimentamos desde o dia em que ele foi escrito, o sonho de
nos darmos bem com Deus, o sonho de nos darmos bem com Deus dando-nos bem uns
com os outros. O esforço de nos darmos bem é escrito a cor de rosa, mas é esse
esforço diário de nos pormos no lugar do outro, de tentarmos compreender as
razões do outro, de discutirmos as nossas razões, lembrarmos que não somos mais
uns que outros. Talvez seja isso o que Paulo recordava aos Coríntios, talvez
seja isso o homens novos e mulheres novas. Talvez libertos da mesquinhez e das
medidas, de preconceitos e da visão do mundo, libertos disso.
Jesus de facto naquela casa cheia de últimos, cheia de gente de fora dá conta disto, queremos que a vida não se esgote nos nossos espelhos, aqueles que são iguais a nós, queremos que estes textos nos devolvam a certeza da nossa missão de aproximadores, de erguedores, de curadores pela proximidade e pela palavra, pelo silêncio... Cada um saberá dar forma a tudo isto. Possa o próximo evangelho de Marcos escrito daqui a dois ou três milénios, possa o próximo evangelho escrever-nos a nós como os que estavam dentro de casa com Jesus, possa o próximo evangelho a ser escrito não dividir os de fora e os de dentro, possa o próximo evangelho, o evangelho a ser escrito por ti, possa este ser o evangelho dos íntimos, o evangelho dos que escutam Jesus, o evangelho dos que se deixam inquietar pelo Espírito e pelos que vêm a Sua acção na libertação de cada próximo.
(família é tudo menos um grupo de iguais - X domingo do tempo comum B | breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | transmissão online, Hospital de Santa Marta, Lisboa, 5 de junho de 2021. | Génesis 3,9-15; 2 Coríntios 4,13 – 5,1 e Marcos 3,20-35.)
https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2021/06/05/familia-e-tudo-menos-um-grupo-de-iguais/

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