Como se laços erguessem
Queridas irmãs queridos irmãos, queridos amigos,
Rita querida Rita e ao dirigir-me a ti que bom seria que cada um substituísse o nome da Rita pelo seu porque podemos hoje, a propósito do batismo da Rita, lembrar o nosso.
Que genial esta coincidência de no dia do teu batismo nos serem servidas
estas leituras Rita, e deixa ecoar no teu coração o pórtico destas leituras, a
primeira frase do livro da Sabedoria “não foi Deus quem fez a morte, Ele é um
Deus de vivos ".
O que hoje saboreamos contigo Rita, o que saboreamos uns com os outros, e é
isso que fazemos sempre que nos juntamos à volta desta Mesa, é descobrir que
Deus habita a vida e Deus manifesta-se nos nossos gestos de vida de cada vez
que nós erguemos, de cada vez que nós permitimos, de cada vez que nós
perdoamos, de cada vez que nós escutamos. De cada vez que nos cuidamos uns aos
outros manifestamos a sua presença, uma presença silenciosa e discreta de quem
está do nosso lado.
(não vou demorar porque a eucaristia fala por si...)
Acolhamos este evangelho que não escolheríamos melhor se tivéssemos de
escolher. Aparece-nos um Jesus que anda de margem para margem, entre mais
judeus e menos judeus, começa a ficar claro (estamos no capítulo V de Marcos),
começa a ficar claro que Jesus é feito para outros, não é só para os limpinhos,
não é só para os judeus cumpridores, Ele anda de margem em margem, anda
marginal, Ele será conhecido como um judeu marginal.
E curioso o que acontece hoje, nós não sabemos bem se isto é uma notícia de
jornal, se é uma catequese de Marcos. Marcos quer-nos dizer muito mais do que
aqui está escrito, nós queremos aceitar tudo o que nos é servido. Se quisermos
sentidos literais, saboreemos os sentidos literais deste texto e saboreemos a
carga simbólica, os símbolos que aqui nos são servidos são geniais também eles.
Aquela mulher enferma... idosa... sem nome... são demasiados pormenores juntos, são demasiadas características... A esvair-se em sangue!
Há autores que veem nesta figura feminina a lei, que envelhecida e impessoal
não salva, pelo contrário se apresenta enferma. E Jesus vem também para essa
lei impessoal e enferma. E curioso que Marcos quer estabelecer uma relação
direta entre esta anciã e aquela menina e coloca um número em comum, diz
Marcos, ela depois foi comer, pois já tinha doze anos.
Doze anos tinha a menina, doze anos tinha a enfermidade daquela anciã, para
que nós as liguemos, para que nós as olhemos uma à outra.
Talvez disséssemos que aquela menina é símbolo dos discípulos de Jesus que
precisam dele para ser erguidos e sim, podíamos ver como muitos autores veem,
em parte também é o povo de Israel, representado pelo pai Jairo,
que significa "ele vai iluminar".
E sim, é como se o povo estivesse por detrás daquele chefe de sinagoga, mas
em todo o caso esse chefe de sinagoga que representaria o senhor da lei, os
senhores da religião não conseguem fazer nada, não conseguem dar vida à filha
anónima de Jairo.
É Jesus quem vem juntar pontas, é Jesus que vem dar sentido a uma lei
antiga e vem completar uma lei nova. E qual é o detalhe que nos permite ver
essa Nova Aliança, essa nova Lei? Marcos faz questão de apresentar Jairo com
pai, ele está a interceder por uma filha, e aquela mulher anciã, pois se é
anciã o senso comum diria ela já não tem pai, não tem quem interceda por ela, e
é aí que está o detalhe que nos serve para o dia de hoje. Pela primeira e única
vez nos evangelhos, Jesus trata uma pessoa por filha, e diz àquela mulher
anciã: minha filha a tua fé salvou-te!
E desta maneira Marcos serve-nos a completude das duas alianças, serve-nos a síntese das duas alianças, apresenta-nos Jesus como aquele que liga a lei e a fé. E o que é a fé? Já dissemos aqui muitas vezes, e gostava que tatuássemos no coração, a fé significa laços. Nos traduzimos fé do grego e do latim como acreditar numa coisa difícil, acreditar numa coisa que nós não sabemos explicar, mas Jesus antes do grego e do latim, falou algures um aramaico, um hebraico e a palavra que Ele usava retirada da linguagem da agricultura amam, significa amarrar a planta à estaca e sim, é esse laço.
Imagina tu Rita, foi isso que Ele disse àquela mulher, o teu laço salvou e
em certa medida o laço daquela mulher foi: Se ao menos eu lhe tocasse no quase
nada de Jesus, eu não sou digna se ao menos no rasto do manto, se eu au
menos... bom, e nesse resto Jesus viu um laço, Jesus viu uma mulher a querer
aproximar-se e também viu o laço naquela menina dependente dos cuidados do seu
pai que foi até ao fim do mundo buscar aquele judeu marginal.
Queremos saborear esse laço Rita e queremos também dizer-te hoje, não sou
só eu a dizer, é a comunidade ainda que simbolicamente queremos também dizer-te
hoje minha filha, minha filha! És nossa filha, és gerada na comunidade,
dependes da comunidade, tens pais que intercedem por ti e tens uma comunidade
que intercede por ti, nós vamos mergulhar-te nesta mini-piscina porque tu
também és uma mini-pessoa e ao mergulhar-te nesta mini-piscina vamos mergulhar-te
na vida de Jesus que vais descobri-lo nos laços uns dos outros e a seguir vamos
ungir-te com óleo, com óleo ungiam-se os atletas na arena e associa-se à força
e nós queremos desejar-te força para o caminho. E com óleo se ungiam também os
reis e os profetas e tu dizes, mas eu não sou nem rei nem profeta, não sou
rainha nem profetiza e eu corrijo, és sim, ÉS SIM! Ao mergulhares na
vida de Jesus tu e cada um de nós, temos valor de rei e de profeta em Jesus e
se quiseres traduzir, esta frase significa que a Igreja sem ti não é a mesma
coisa sem ti Rita a palavra igreja, para dizer a comunidade dos discípulos de
Jesus, tinha de se inventar outra, não servia. Sem ti a Igreja
não é a mesma coisa, sem ti o mundo não é a mesma coisa e por isso te ungimos
porque rainha e profetiza
(breve comentário aos textos
bíblicos lidos em comunidade | Domingo XIII do Tempo Comum B | transmissão
online, Hospital de Santa Marta, Lisboa, 26 de Junho de 2021. - Sabedoria
1,13-15 – 2,23-24; 2 Coríntios 8,7-15 e Marcos 5,21-43.)
https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2021/07/04/imaginas-um-mundo-sem-profetas

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