Até aceitar

Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos 

Acolhamos os textos que nos são servidos, à volta da mesma mesa como alimento, acolhamo-los como semente que germina para fazer de nós alimento, talvez seja por isso que insistimos em vir a esta Mesa e vamos, aqui e ali são sempre os mesmos ainda  que demorem a repetir-se, vimos aqui ouvir os mesmos textos para sermos pão, para que a semente germine no nosso coração a ponto de sermos dom. Há de facto uma ligação nas leituras que escutámos, quer na primeira do Profeta Ezequiel  quer no Salmo, quer no Evangelho de Marcos.

Escutávamos a metáfora da árvore, do cuidado da árvore, da planta... uma planta que começa numa semente tão pequena e contra todas as previsões, como por exemplo o arbusto da mostarda chega a ser a maior das árvores da horta. Mas há um detalhe, quer no livro do Profeta Ezequiel quer o salmista, que Evangelista Marcos, fazer determinar o ciclo de desenvolvimento da planta num pormenor e talvez seja esse que nos interessa agora.

Dizia o Ezequiel que ramo mais verdinho será transplantado, a figura de um povo, o povo eleito por Deus, o povo em exílio na Babilónia, retomará à terra e voltará a ser uma grande árvore e dizia, a ponto de as árvores se virem abrigar e Marcos coloca as mesmas palavras de Jesus, quando a partir do grão de mostarda, nos recorda que a árvore vai crescendo, crescendo e torna-se a maior e o ciclo de desenvolvimento termina: Até as aves vêm abrigar-se. 

Em certa medida o que queremos saborear é esse ponto de desenvolvimento.

Quer na primeira leitura, quer no Evangelho e o Salmo também dá conta disso, o estado de desenvolvimento mais avançado parece ser essa capacidade de SER ABRIGO, capacidade de acolher, capacidade de aceitar. 

E ficaríamos assim e não ficaríamos mal

Acolhamos estes textos também como mapa, como é que treinamos esse estado de desenvolvimento que identifica o acolhimento como a fase mais madura, o acolhimento, a aceitação, com treinar tudo isso? 

Os textos em certa medida, principalmente o Evangelho apresentam-nos um mapa, um treino, viver com o que nós não controlamos, viver com o que nós não explicamos. 

Em certa medida o que nos é dito terá um impacto diferente em cada um. Possa esse impacto devolver-nos paz, aliás se estes textos não concorreram para uma vida melhor, para uma vida boa se calhar precisamos de relê-los, ruminá-los, desculpem a expressão...

O que estes textos nos dizem, particularmente o Evangelho, é que de facto o mundo sem ti não é a mesma coisa. É verdade, o mundo sem ti, o mundo sem mim, o mundo sem nós teria de ter outro nome, ao dizermos mundo é com tudo o que existe, é connosco. E porem, também nos é dito que o mundo sem ti continua a rodar, continua a girar e o sol sem ti continua a pôr-se e a levantar-se. 

Que isto possa ser motivo de alegria que isto não seja para dizer que somos dispensáveis, pelo contrário, somos tão preciosos e tão precisos e há tanto que nos escapa e se quisermos, a sabedoria do Evangelho inscreve-se na sabedoria da humanidade que é aceita isso!

Aceita que és precioso e imprescindível e aceita que há tanto que te escapa. Tanto na tua vida, tanto nas relações, nas tuas relações, tanto nos teus afazeres e nos teus cansaços, tanto nos teus projetos, nos teus sonhos, nos teus desejos, tanto no teu esforço que te escapa.... Aceita isso! É talvez a aprendizagem maior da nossa vida, a aceitação do que é contingente, a aceitação do imperfeito, a aceitação do imprevisto, a aceitação daquilo que sobrevem sobre a nossa vida e claro, é fácil aceitar o convite para uma festa, é fácil aceitar motivos de alegria, quase nem precisamos de treinar, é fácil aceitar surpresas agradáveis. Porventura toda a vida é uma escola de aceitação do que é difícil, a aceitação da nossa contingência, do facto de a nossa natureza ter tudo para termos todas as doenças e irmos caminhando num equilíbrio inexplicável, até ao dia em que esse equilíbrio já é insustentável. 

O estado de desenvolvimento que nos é apresentado como o mais evoluído, nestes textos de hoje, é a capacidade de acolher, é a capacidade de aceitar... É isso  que queremos treinar  a vida que não controlamos, na vida que não explicamos e queremos saborear o detalhe com que Marcos nos dizia que Jesus falava apenas em parábolas  falava apenas com histórias, com aproximações, mais dizia Marcos, na intimidade Com os discípulos, quando estava a sós com eles não ficava duvida alguma, explicava-lhes tudo. Queremos neste pormenor também ver um mapa, vermos uma possibilidade também de nos treinarmos na aceitação, sabendo que a intimidade também é reveladora.

A intimidade é reveladora, o estreitar dos nossos laços, a vontade com que nos cuidamos, essa intimidade, essa aproximação, este cuidado é revelador para aprendermos a arte de aceitar e acolher.

Possam estes textos, possa o dia de hoje concorrer para nós questionarmos as nossas insistências, insistimos naquilo que damos por certo, insistimos naquilo que julgamos estar correto, insistimos naquilo que nos parece melhor, insistimos, insistimos, e aplicamos o nosso esforço nas nossas insistências e a palavra livre de Jesus vem. 

Pelo menos no dia de hoje, respira fundo e questiona as tuas insistências, a semente germina para lá do teu esforço, a semente germina independentemente do teu esforço aliás, se tu fizesses um esforço para ver como a semente germina, a semente não germinaria, se precisasses de escavar e ver semente morrer para germinar, ela não morria e não germinava, precisa que não a vejas. Em certa medida as nossas existências também precisam de um eclipse para as repensarmos, precisam de um silêncio para as repensarmos, precisam de uma ausência, de um distanciamento.

Queremos, na escola da sabedoria da escritura e queremos também no dia de hoje lembrar isso. A nossa existência, as nossas existências queremos questioná-las, porque se não forem para acolher melhor, se não forem para aceitar melhor, para aceitar mais e acolher mais, talvez não precisássemos tanto de existir.

(até aceitar - XI comum B - breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Domingo XI do Tempo Comum B | transmissão online, Hospital de Santa Marta, Lisboa, 12 de Junho de 2021. Ezequiel 17,22-24; 2 Coríntios 5,6-10 e Marcos 4,26-34.)

https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2021/06/12/ate-aceitar/

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