A existência a partir da ausência

Queridas irmãs, queridas amigas 

Acolhamos estes textos como alimento de caminho, como luz no nosso caminho, temos lido este capítulo VII do evangelho de Mateus de forma continuada, começámos ontem, nele estão ditos de Jesus, frases soltas que os discípulos guardavam na memória e transmitiam de geração após geração e Mateus organiza-os numa espécie de discurso e percebemos que a coleção de frases vem em contextos diferentes, "não deis aos cães o que é santo", "não lanceis aos porcos as vossas pérolas " e eu recebo esta frase e cada um recebe esta frase, e eu sou capaz de dizer: se não tivessem lançado o que é santo aos cães e pérolas aos porcos eu não estava aqui, porque aos olhos da pureza judaica estes animais são os despidos de instrução, são equiparados aos que não conhecem a instrução rabínica, são os outros, são os gentios.

E se não tivessem lançado o que é santo e isso entende-se a carne imolada em sacrifício, mas vamos nós entendemos a semente do Reino de Deus, o sonho de Jesus, se não tivessem partilhado isso com gente de segunda eu não estava aqui e possivelmente muitos de nós não estaríamos aqui e não sabemos bem se isto é ironia ou não.  E numa frase que nos parece difícil arrumar porque não sabemos se é irónica, se não, e logo de seguida, sem quase preparação nenhuma é-nos apresentado a frase de ouro do evangelho, das frases que sintetizam tudo, até o próprio Jesus diz que nisto consiste a Lei e os Profetas: "Aquilo que queres que te façam a ti, faz tu". Se não perceberam mais nada do meu sermão, diria Jesus, este é o resumo. A Lei e os Profetas cabem nisto, oque queres que te façam, o que queres que Deus te faça a ti, faz tu, faz tu! 

E ficamos de facto com tudo em aberto, a possibilidade de pelo dom de nós próprios saborearmos a presença de Deus entre nós. E como é que isto e possível? 

Há um grande contraste, um contraste gritante e que é muito visível por exemplo nos textos que foram escolhidos para lermos hoje retirados do capítulo XIII do Génesis e este parágrafo do capítulo VII de Mateus. Curioso, o autor do livro do Génesis faz questão de fazer um inventário aos bens de Abraão e de Lot, têm muitos rebanhos, tem outro, tem prata, tanta gente, tantos pastores lhe pertencem que até nem cabiam naquela terra, que tiveram de tomar medidas tantos os bens que eles tinham. E curioso, nós folheamos os Evangelhos e nunca houve um evangelista que nos dissesse um bem de Jesus, uma coisa, uma propriedade, alguma coisa que Ele possuísse e tão escandalosa é esta ausência que porventura é uma afirmação a ponto de Jesus dizer que não tem uma pedra onde reclinar a cabeça. E em certa medida esta é uma grande descontinuidade entre o judaísmo e o judaísmo daqueles que seguem Jesus e aquilo que os outros inventaram no seguimento de Jesus. 

De facto, para os judeus a riqueza é uma bênção e confirmação da intervenção de Deus na nossa vida, é um premio e de facto para cristãos a riqueza é um problema e isso explica bem, ao longo da história e ao longo dos séculos, por exemplo na zona da que chamamos Europa, os bancos, as instituições financeiras dificilmente estão em mãos de cristãos porque de facto os cristãos têm um problema e uns escrúpulos com a riqueza. E é muito fácil ver famílias judaicas que tomam conta de instituições financeiras e da banca porque, sim não têm assim tanto escrúpulo neste sentido, porque veem na riqueza uma confirmação, um prémio da parte de Deus e isto não é para dizer que está bem ou que está mal, é assim, é cultural, é religioso, faz parte do nosso património, está no nosso ADN. 

Sim, há uma dificuldade com a riqueza e há um exagero na apresentação de Jesus como aquele que não tem e aquele que depende. Ele encontra-se tantas vezes em casa de outros, Ele depende de outros. São os discípulos que vão preparar a Páscoa, Ele depende de outros, não tem, depende de outros. 

E porventura é isso que queremos saborear ao lermos este parágrafo dos mais centrais do Evangelho se quiséssemos, não sou eu a dizer, é o próprio Jesus ao dizer que assim se sintetiza a Lei e os Profetas. 

Em certa medida a estreiteza da porta e do caminho dá-nos conta em contraste daquilo que Jesus dizia dá-nos conta em contraste com o judaísmo que Jesus vivia.

Não vos quero ricos, diria Jesus aos seus discípulos, eu sei o que é que vai acontecer se cada um ficar rico, cada um vai bastar-se a si próprio! 

Eu não vos quero ricos, olhai para mim, eu quero-vos dependentes uns dos outros e quero que façais uns aos outros aquilo que esperais que vos façam e não espereis que eu venha fazer por vós, o que perdoardes será perdoado o que não perdoardes ficará por perdoar, o que fizerdes ficará feito, o que não fizerdes ficará por fazer... E sim, queremos saborear este Deus desvanecido, este Deus que desaparece, este Deus que nos deixa como sinal a sua ausência. E só um Deus assim permite que tu entres, faças e o teu bem brilhe e quem vê o brilho do teu bem, possa glorificar o Pai que está nos Céus.

(breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | semana XII – Terça | Lisboa, 22 de Junho de 2021. Génesis 13,2-18 e Mateus 7,6-14)

https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2021/06/22/a-existencia-a-partir-da-ausencia/

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