Santo és tu em modo original


Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos 

Acreditamos que este encontro de amantes, que este encontro de gente beijada pelo mesmo Deus, de gente amada pelo mesmo Deus não nos deixa na mesma. 

Hoje estamos mais  ou menos, como escutávamos na primeira leitura (acho que não nos falta nada) estamos no mesmo espaço, na mesma cada, à volta da mesma mesa, estamos sintonizados, cada um com a sua língua, cada um com o seu sotaque, não nos falta nada, cada um com as suas proveniências, cada um vem do seu mundo, cada um vem da sua realidade e que bom que não nos falta nada, não nos faltam os sotaques, não nos falta a diversidade, não nos falta a originalidade e é isto que nós queremos celebrar no dia de hoje.

Ao celebrarmos o Pentecostes, celebramos a presença do Espírito Santo. E o que é que é o Espírito Santo, que bom que ninguém sabe, aproximamo-nos Dele. Sabemos que ao falarmos de espírito, mesmo quando estamos a falar de nós como espírito, não estamos a falar de gases, estamos a falar da nossa construção como pessoa, na sua inteireza, sem deixarmos nada de fora. Não somos só corpo, não somos só alma, somos tudo isto. Aquilo a que chamamos pessoa que é sinónimo de espírito.

Os semitas, nós somos herdeiros do judaísmo, falam do Ruá, do Sopro, dum fluxo de ar, aquilo que nos faz vivos.

Lembramos como o grande mito de origem dos Genesis fala de como Deus cria a humanidade, não bastava ser feita de matéria, insuflou-lhe ar, soprou. 

E os semitas têm várias línguas muito práticas, o verbo soprar e o verbo beijar,

escrevem-se com o mesmo radical, escrevem-se com quase as mesmas letras, ambos precisam dos lábios, em certa medida naquele mito de origem percebemos que o autor quer falar da humanidade criada por Deus, como aquilo que diferencia é o amor. Não é só matéria, foi beijada por Deus e se quisermos aquele fluxo de ar que torna aquela matéria vivente lembremos o nosso fluxo de ar, aquilo que é um sinal vital e que diz que estamos vivos. Lembremos isso, o que nos mantem vivos, lembremos o que nos faz levantar da cama a cada dia, lembremos o que nos faz regressar do trabalho, lembremos o que nos faz desejarmos estar com uns e outros, lembremos isto... este fluxo de ar que nos mantém vivos, este beijo que nos mantém vivos.

O texto que nós poderíamos ter lido hoje, que é servido para Vigília de Pentecostes, a história de Babel, naquela história percebíamos que a humanidade queria o lugar de Deus e o autor fala na construção de uma Torre, e aquela Torre estava em franco crescimento e estava a correr muito bem e diz-nos o autor para explicar a diversidade das línguas neste mito de origem, foram distribuídas línguas diferente para que todos se desentendessem e para que essa Torre não fosse construída, para que não se chegasse a Deus. Babel significa a porta de Deus. E nós com esta história percebemos que a Porta de Deus não se abre só com o nosso esforço. A Porta de Deus nós percebemos em Jesus e nos primeiros de nós que se deixaram derreter por este Deus amoroso, percebemos que a Porta de Deus se abre aos amantes, percebemos que a Porta de Deus se abre aqueles que com o seu sotaque, com a sua mundividência, com as suas idiossincrasias, com as duas características, com aquilo que o torna único e irrepetível é capaz de se por no lugar do outro e é isto que abre a Porta de Deus e é isto que é a Babel e é assim que tocamos Deus.

Jesus fez questão de dizer que é Outros, ao tocarmos o próximo tocamos Deus.

Deixemos que este dia fique por cumprir deixemos que este dia fiquei em aberto, é pena que é só um fia no ano. Nós pomo-nos a pensar que na quaresma são quatro semanas, multiplicam-se as catequeses quaresmais, fazemos exercícios e até jejuamos, até gastamos dinheiro que tiramos do bolso para dar a outros, fazemos tanta coisa é um exercício tão prático,  é um ginásio e vamos... que pena os nossos planos pastorais, parece que perdemos mais tempo com estes exercícios do que a celebrar este dia que é tão decisivo, que é tão inspirador, que é tão subversivo que é tão inclassificável,  neste dia dizemos com todas as letras que  todos são MORADA DE DEUS, todos são TEMPLO DO ESPÍRITO SANTO.

Isto é terrível, no sentido de que é grandioso demais para compreendermos. Todos, todos mesmo esses feios, mesmo esses que têm um sotaque e uma língua diferente da tua, os que se penteiam de maneira diferente da tua, que vestem de maneira diferente da tua, que amam de maneira diferente da tua, todos esses são Moradas de Deus, são Templos de Espírito. Isto deixa-nos com tanto que fazer, isto deixa tudo em tensão, deixa um caderno de encargos... queremos-nos reconciliar com isto, é esse o nosso registo.

Jesus nunca disse: " Eu sou o sofá" e quero que vocês se sintam confortaveis e quietos a vida inteira. " Eu sou o caminho" e ide por todo o mundo, aqueles a quem perdoardes serão perdoados, o que fizerdes ficará feito e o que não fizerdes ficará por fazer, eu não venho cá fazer por vós. E assim ficamos, na ausência de Jesus e no desejo de vê-lo em cada próximo.

Não há dia mais feliz do que este, deixemo-nos queimar por este fogo, deixemos que este amor que queima, um Deus que te ama sem porquês, um Deus que sem mérito, sem justificações um Deus que te ama!

Deixemos que este dia não nos deixe na mesma, lembremos que depois de Jesus e essa a nossa originalidade como cristãos, a santidade já não é da ordem da separação como em outras religiões, a santidade é da ordem da originalidade, Deus quer-te como tu és, como te vestes, como te penteias, como amas, com as tuas escolhas, com a tua história, com as tuas feridas. Jesus apresenta-se aos seus discípulos ferido e ele alegram-se, é essa a nossa relação com Deus, apresentamo-nos feridos, apresentamo-nos originais, com a nossa história, com as nossas cicatrizes e esta originalidade é motivo de alegria de Deus. Celebremos a festa de Deus em nós, celebremos a festa de sermos Templos do Espírito, celebremos a festa de sermos Santos porque originais. 

(Domingo de Pentecostes B - santo és tu em modo original - transmissão online, Hospital de Santa Marta, Lisboa, 22 de Maio de 2021- Actos 2,1-11; 1 Coríntios 12,3-13 e João 20,19-23.)

https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2021/05/23/santo-es-tu-em-modo-original/

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Fará sentido viveres com medo de quem te conhece?

Amados imperfeitos

E como queremos que seja entre nós?