Porque sim também salva - Visita de Maria a Isabel
Queridas irmãs, querida família
Que oportuno
celebrarmos esta coincidência de celebrarmos esta festa, este quadro bíblico do
encontro entre Maria e Isabel, esta visita tão revestida de alegria, logo no
dia a seguir a celebrarmos a Solenidade da Trindade, nós que vemos nesta festa da
Trindade, a vontade de Deus de congregar-nos como família.
Nesta visita de
Maria a Isabel vemos um quadro que é um estímulo, uma inspiração a nos
visitarmos, a nos encontrarmos a darmos forma ao sonho de Jesus, este Deus
obcecado por nos aproximar, por não prescindir de ninguém, por não deixar ninguém
para trás e ao mesmo tempo, neste quadro de Maria e Isabel, vermos Deus nas
nossas visitas, nos nossos encontros, na nossa proximidade. Deixemos que esta
oportunidade, esta insistência de um dia e depois do outro, convocando-nos à
proximidade e à construção duma família, seja estímulo a isto, a fazer o que
falta fazer, a mudar o que falta mudar, nem que seja a aproximar o que falta
aproximar, calar o que falta calar, dizer o que falta dizer.
Não sei se se
percebe bem onde é que Lucas quer chegar, nós lemos uma parte deste primeiro capítulo
do seu evangelho e parece que Lucas, vai pontuando um pormenor de contabilidade,
para nós fazermos a conta. E vamos, se fosse para fazermos a conta e chegarmos
a uma conclusão óbvia, percebíamos o propósito da contabilidade, mas fazermos a
conta para chegarmos a uma conclusão bizarra, se calhar é mesmo intencional, se
calhar é mesmo a vontade de Lucas de nos colocar defronte de um absurdo.
Antes deste
quadro falávamos do anúncio de João Batista na vida de Zacarias e Isabel. E o
mensageiro, o recurso literário de Lucas, naquele diálogo com Zacarias disse,
ele vai ser pai e Isabel vai ser mãe. E ele diz, mas como é que eu posso
ter a certeza se eu sou velho e Isabel é velha? Olha então por causa disso vais
ficar mudo.
Não sei se se
recordam mas uns versículos à frente ouvimos um quadro semelhante, onde o mensageiro,
o recurso de Lucas naquele diálogo com Maria, diz-lhe: "tu vais ser
mãe" e ela diz: como é que é isso, eu não tenho ninguém, eu não tenho
noivo, eu não conheço ninguém, havia de dizer... "então por causa disso
vais ficar muda". Não, não temas, não temas, és tão pequenina, não temas.
Na tua pequenez tens tudo, tens tudo!
E nós aqui
ficamos despistados, dois pesos e duas medidas. Além disso, o pormenor da
contabilidade, quando Zacarias regressa a casa diz-nos o texto que Isabel
encontrou-se grávida e permaneceu em casa cinco meses e nós apontamos cinco
meses. No anúncio a Maria é dito que ela está no sexto mês da gravidez e
nós apontamos seis meses. E Maria saiu apressadamente, como escutávamos agora
ao encontro de Isabel e ficou em casa três meses, e nós apontamos mais três
meses. Antigamente não se falavam das 40 semanas, das 38, das 42 semanas e nós
apontávamos, nove meses dava para orientar, e diz-nos o texto que ela regressa
a casa, e o versículo a seguir é, Isabel chegando ao termo da gravidez deu à
luz.
E nós
estamo-nos a perguntar porque raio é que Maria foi ter com Isabel para vir
embora na altura em que mais precisava de ajuda? O que é que ela lá foi fazer?
E como é que uma miúda de 14 anos, grávida, faz uma viagem de quatro dias? É só
impossível, ela sozinha nunca iria. Quem eram os pais ou o marido que deixaria
uma miúda grávida de 14 anos fazer uma travessia de quatro dias sozinha? Não
pode ter acontecido e também, fazer aquele esforço para ficar três meses e não
podia ficar mais uma semana que era quanto mais era preciso?
Talvez este
esforço de contabilidade para chegarmos a esta bizarria de Maria não ter ido lá
ajudar, pelos vistos Maria não foi ajudar, não há aqui um propósito de ajuda
pessoal a uma velhinha que se encontra grávida e precisa de muita ajuda, pelos
vistos não é isso que Lucas nos quer dizer, Lucas reveste este encontro de
profunda alegria e apresenta-nos este encontro com profunda gratuidade. E
vamos, é isso que queremos recolher para o nosso alimento, é isso que queremos
recolher para o nosso percurso.
Falamos de um
encontro de duas alianças. E de facto vemos em Zacarias um Deus do castigo e
vemos em Maria um Deus da misericórdia. E Lucas quer deixar isso de tal maneira
vincado, de tal maneira disruptivo que sim, apresenta-nos um quadro sem
sentido, um quadro fundado apenas na alegria.
Estas duas mulheres
encontram-se porque sim, estas duas mulheres encontram-se porque sim e aquela
alegria de ambas, só porque sim.
Ah! Maria ainda
bem que vieste que eu precisava tanto da tua ajuda! Não ficou registada essa
frase, há apenas um porque sim, uma
gratuidade e uma profunda alegria. E porventura é isso que nós queremos
celebrar, nós que nos dizemos pertencentes à segunda aliança, nós que nos
dizemos aliados do nosso amado, do nosso Jesus, queremos saborear isto, a forma
como Ele nos visita.
Porventura não
vem ajudar-nos, será que conseguimos multiplicar tantos trabalhos e temos
tantas canseiras sentimos a sua presença talvez não seja tanto uma ajuda, mas
sentimo-Lo presente e sentimos as Suas visitas gratuitas e porventura
revestidas de alegria mesmo naqueles dias de lágrimas.
Queremos
acolher a Sua visita, queremos lembrar o Deus que nos ama porque sim, para lá
das nossas características, das nossas vergonhas, para lá de tudo e com isso
tudo.
O Deus que nos ama porque sim, que nos visita porque sim, que nos ama e nos visita não para nos ajudar, mas porque sim. E possa esta gratuidade e esta alegria dar forma e alegria à gratuidade com que nos encontramos, com que nos visitamos, com que nos cuidamos
(Porque sim também salva - Visita de Maria a Isabel - breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | | Lisboa, 31 de maio de 2021. Rom 12,9-16 e Lucas 1,39-56.)
https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2021/05/31/porque-sim-tambem-salva/

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