E tu, o que queres ver?

Queridas irmãs, queridas amigas

Que oportunos são estes textos na semana em que ainda estamos inebriados som o Pentecostes, ainda estamos inebriados com a fonte da nossa alegria.

No domingo passado, na festa que chamos do Pentecostes, lembramos uma realidade diária de que somos habitados misteriosamente por Deus, somo reveladores de Deus uns para os outros, somos acção de Deus uns para os outros sem sabermos bem como, sabendo-nos sem qualquer merecimento, sabendo-nos desajeitados, somos morada de Deus, isso é fonte da nossa alegria, é a fonte da nossa maior alegria!

E que oportunos estes textos numa semana em que ainda estamos inebriados dessa alegria. 

Escutávamos no livro do Ben-Sira: A obra do Senhor está cheia da sua Glória, que bom que não esquecêssemos isto, que bom que nos lembrássemos que todos são morada de Deus, que todos são Templos do Espírito, que bom que isto estimulasse à forma como nos olhamos, à forma como nos organizamos, mesmo que, dizia Ben-Sira, não entrevemos senão uma centelha, sabemos disso, mas com dificuldade vemos. E sim, os textos que nos são servidos hoje querem tocar este ponto, a visão e a cegueira, aquilo que temos e o que não vemos, aquilo que julgámos saber e o que não conseguimos ver.

É muito bizarro este episódio que Marcos nos apresenta neste parágrafo que acabámos de escutar, neste parágrafo do capítulo 10, estávamos habituados até este capítulo à falta de nomes em personagens que aparecem junto de Jesus e este mais ou menos tem um nome, mas também não tem porque o nome que é da é simplesmente o filho de Timeu. O convite a nós leitores, sempre que um personagem aparece sem nome, o convite é colocarmos nós o nosso, talvez seja essa até a intenção do autor ao deixar em aberto. Timeu significa filho de um estimado percebemos que há uma vontade do autor de nos falar de redes. Que necessidade tinha Marcos de nos falar de falar do pai daquele cego que nem sequer o vemos nem

sequer esta ali na história? Marcos desde o princípio nos que deixar esta pista, este piscar de olho, estamos a falar de redes, a multidão inebriada com a presença de Jesus, os discípulos inebriados com a presença de Jesus, e numa alegria a sair de Jericó não conseguem ver aquilo que aquele cego consegue ver, não conseguem ver a presença de Deus naquele aleijado. A pureza judaica olha para a deficiência física como um castigo de Deus e nós somos herdeiros disso também, que pena... olhavam para aquele cego como um amaldiçoado e aquele cego na sua cegueira, pela primeira vez no evangelho de Marcos, atribui a Jesus um título de Messias e que só quem lê a Torá sabe e um cego não lê a Torá. Chama a Jesus Filho de David, Filho de David, grita Filho de David pela primeira vez. Aquele cego apresenta-se-nos bizarro, um cego que conhece a Lei, se é cego não pode ler a Lei, um cego que vê mais do que uma multidão inteira e o que acontece no diálogo entre este cego meio anónimo e Jesus, também nos deixa meios despistados... que raio de pergunta Jesus, o que é que queres que te faça, não se percebe? Pois não se percebe, não se percebe... porventura não aconteceria nada sem este diálogo, pelo menos na intenção de Marcos e queremos saborear precisamente isso. A palavra fé que nós nos habituamos a traduzir do grego e do latim, tem que ver com conhecimento de coisas, a verdade para lá da experiência, coisas difíceis de explicar, do original hebraico é retirado do contexto da agricultura, a o verbo Ama de onde vem a palavra fé descreve o laço que se dá entre a planta e a estaca e assim vemos que era impossível haver saúde se não houvesse aquele diálogo. O Teu laço salvou, esta relação salvou. É a relação que não nos deixa na mesma, são os nossos Laços Espaços de Salvação, o mesmo é dizer não nos deixam na mesma. E o convite àquele cego, vai foi esse teu laço, foi o nosso laço que te salvou, que nos salvou.

E aquele cego recusa-se a ir embora e diz-nos o texto seguiu Jesus pelo caminho. Ele que nos foi apresentado numa rede, ele que é filho de um Pai, filho de um estimado, na despedida é-nos dito que seguia Jesus, não fica de fora da rede. E queremos saborear isto, nós que somos rede, nós que somos outros, nós que somos feitos de tanto, nós que nem conseguimos nomear quem habita o nosso coração, nós que nem conseguimos contar os nossos amores, nós que somos uma multidão queremos saborear tudo isso como o nosso espaço de salvação. É nestas consolações das nossas relações que Deus se manifesta porque em cada um mora Deus, cada um é Templo do Espírito.

Queremos que isto saiba a verdade nesta hora, não queremos perder a memória deste sabor, são os laços que nos salvam. Ao lembrarmos com aflição aqueles que amamos e com quem nos preocupamos, lembremos esta verdade, são os laços que nos salvam. E sim, aquela pergunta não era disparatada porque nem sempre o que é mais urgente, por exemplo a saúde, pode de facto não estar ao nosso alcance,   e como lembrava a.... "quando não há nada a fazer, está tudo por fazer", pode não estar ao nosso alcance a corpo, mas está ao nosso alcance o laço, está ao nosso alcance a presença, o gesto, o silêncio, o toque, está ao nosso alcance lembrarmos esta verdade, que são os laços que nos salvam, que a fé  não nos deixa na mesma.

 

(breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | 5ª feira-semana VIII Maternidade Dr. Alfredo da Costa, Lisboa, 27 de maio de 2021. | Ben-Sira 42,15-26 e Marcos 10,46-52.)

https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2021/05/28/e-tu-o-que-queres-ver/

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