Feridos, inteiros, pascais

 
Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos

Com o afeto mais próximo e sensorial os que aqui estão junto comigo, que sorte tenho eu, e com carinho para quem à distância não desiste de sintonizar a esta hora com a comunidade que se encontrava no hospital de Santa Marta, que bom que nos saboreamos erguidos neste dia de Páscoa. Jesus não está aqui! Dizia o texto pascal, não está aqui foi erguido e, por causa disso, e porque os discípulos se lembraram de quantos Jesus ergueu, particularmente os mais caídos, particularmente os mais fora da religião pura do judaísmo, quando os discípulos juntaram as peças começaram a erguer, começaram de novo, foram para a Galileia e foram erguendo, erguendo, erguendo... E por isso estamos aqui, e por isso, nós também o sabemos, inseridos numa genealogia de erguidos e de erguedores.

Saboreamos este texto que nos foi servido, é a conclusão do evangelho de João. O capítulo XXI, é um epílogo, é um acrescento do parágrafo com que terminávamos a leitura do evangelho de hoje, dá conta de facto que foi um ponto final na leitura do evangelho de João.

Sintamos que este texto é para ti, é para mim, é para os que não viram e acredita, para is que não viram nada é vão buscando, para os que não viram, mas também não desistem. Este texto é para nós!
Saboreamos estes detalhes de um Jesus que aparece em lugares improváveis, que aparece e visita o medo dos discípulos, que aparece estando as portas fechadas, que aparece inexplicavelmente.  Eu tenho a certeza que todos os que leem este texto, sentem o que é que João quer dizer com isto. 

Também nos nossos medos e também quando julgamos que as portas não se abrem, cada tem uma história a contar, cada tem uma história a contar de uma presença leve e inesquecível de Jesus e essa presença leve e inesquecível nós vamos percebendo que assume formas múltiplas e uma delas, assume a forma da comunidade. Todos os textos que escutávamos são um elogio à comunidade e sintonizemos com esse elogio, se tivéssemos aqui champanhe já podíamos brindar à comunidade, porque se quisermos é presença mais sensível de Jesus Pascal entre nós, uns e outros a comunidade. Se não saboreamos os detalhes de João, João pisca o olho a quem conhece o Livro de Genesis e eu tenho a certeza que já tropeçamos um milhão de vezes no Livro de Genesis.
O Livro de Genesis foi escrito uns quatro séculos antes de Jesus e procura uma leitura entusiasmada, vendo Téo, vendo Deus por detrás de tudo e o autor entusiasmado do Livro de Genesis procura, eu imagino o autor a escrever aos seus filhos, aos seus leitores, à sua comunidade, procura ele próprio partilhar a sua visão das coisas, procura ele próprio justificar a presença de Deus por detrás de tudo incluindo por detrás do ordenamento do tempo, por detrás da semana, por detrás dos ciclos  e de facto o Livro do Genesis tem, naqueles relatos mitológicos de criação, tem o propósito de lembrar o sábado, de lembrar a cadência de sábado e lembrar o descanso de sábado. Pois bem, se vos recordais o nosso texto de hoje já no final do capítulo XX do evangelho de João, por duas vezes faz questão de lembrar uma cadência temporal, já não é no sábado, que para os judeus era o dia mais importante da semana, mas sim no primeiro dia da semana, aquele que nós hoje chamamos o dia do Senhor,  o domingo, seria a primeira feira, o primeiro dia da féria. Por duas vezes João insiste neste primeiro dia da semana.

Neste paralelo entre o evangelho de João e o Genesis, percebemos que João está a falar de uma nova criação. Jesus apresenta-se como um Novo Criador e é  Ele que dá sentido a um Novo Tempo e esse Novo tempo começa no primeiro dia. ~
E recorrendo ainda aos símbolos da criança, ao património simbólico do Genesis, João coloca Jesus a soprar em cima dos discípulos (em tempos de civis, altamente desaconselhável, não é recomendado), mas lembramos o sentido desse sopro. No Livro de Genesis Deus esforçou-se muito a criar o homem havia um relato em que Ele amassa do pó da terra, da lama, cria o feito de terra. Cria o Adam a partir do adamá, da terra. 

Mas ainda assim ele não estava vivo, ele não estava pronto, diz-nos o autor no seu mito de origem, para que aquele ser passasse a ser vivo, diz-nos o autor do Livro de Genesis que Deus soprou, soprou naquela massa, naquele adamá, naquela terra e nasceu o Adam o feito de terra. E sendo o hebraico uma língua muito pragmática, e já dissemos isto várias vezes, mas é tão importante... O verbo soprar e o verbo beijar, têm a mesma raiz, precisamente porque a língua é pragmática e ambos os verbos precisam de lábios, precisam de boca. 
Saboreamos este sentido, naquela criação que o autor do livro do Genesis procura reler e nesta nova criação em Jesus,  estamos a falar de gente beijada, de gente amada. O que fez viver Adam foi saber -se amado e capaz de amar e o que faz estes discípulos abrirem a porta, foi este beijo de Jesus. Saberem-se beijados, saberem-se amados e saberem-se eles depositários do tesouro de Jesus, IDE E BEIJAI, IDE E SOPRAI, IDE E ERGUEI, IDE E PERDOAI e o que não fizerdes vai ficar por fazer. Confio tudo em vós!
E quem estes vós? E quem são estes que estão de portas fechadas com medo dos judeus? Se nós quiséssemos fazer uma espécie de bowling àqueles que zarparam da presença de Jesus, àqueles que o abandonaram à ultima hora, diríamos que estes são os loud ??? estes,  os que estão fechados em casa são os falhados e nós queríamos que Jesus aparecesse e lhes dissesse, como é que é,  agora estão aqui? O ajuste de contas, como é que é?

Paz, paz, paz insiste Jesus. PAZ! E neste pedido de paz para os discípulos  e nesse beijo àqueles falhados o que é que temos como presente de Jesus para nós? 

Jesus não escolhe imaculados, Jesus escolhe feridos, Jesus escolhe inteiros e essa inteireza está no facto de Jesus que a tantos curou, poder também ter fechado as suas próprias feridas, não! Jesus insiste em apresentar-se ferido, o mesmo é dizer: insiste em apresentar-se inteiro. Nós somos aquele Tomé, o quê? Como é que é isto? Ele que pode fazer tanto não desiste da nossa condição?

Como é que é possível Ele viver ferido e ainda por cima depositar o ser maior tesouro nas mãos de feridos?
Nós somos aquele Tomé pasmados para sempre. Alegremo-nos porque Jesus escolhe inteiros, alegremo-nos porque Jesus escolhe feridos, alegremo-nos porque Jesus te escolhe a ti, e me escolhe a mim e nos escolhe a nós.

Tomé já não escarafunchar as feridas de Jesus, Tomé já não foi pôr os dedos nem a mão em lado nenhum, Tomé acreditou na comunidade. É esse o tesouro que nos fica, um convite que é tão difícil, o de acreditarmos uns nos outros e de acreditarmos na comunidade e de acreditarmos na presença de Deus encarnado uns nos outros. 

E ninguém disse que era fácil, ninguém disse que era rápido, mas é esse o tesouro que nos faz sentir bem. Tomás Halik: Eu já não acredito em religiões sem feridas.
Sim, a nossa religião o que Jesus nos deixa nas mãos, deixa-o a feridos e só feridos dão conta dele.
Só como Madalena, só quem esteve morto sabe o que é voltar à vida, só estes falhados percebem o que é ser perdoado, só estes que estavam amedrontados sabem o que é ser erguido e lhe serem abertas as portas.

Só cada um de nós, na nossa história, com as nossas feridas sabe o que é erguer-se, sabe o valor da Ressurreição.
Apresentemo-nos ao Senhor como este Tomé desarmados e procuremos na nossa comunidade e nos nossos lares, naqueles com quem nos ocupamos e por que nos preocupamos, saibamos como Tomé ver O "MEU SENHOR E O MEU DEUS".

(II Domingo da Páscoa B - Feridos, inteiros, pascais - breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Lisboa, transmissão online, 10 de Abril de 2021. - Actos 4,32-35; 1 João 5,1-6 - João 5,1-6 e João 20,19-31)

 

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