E se o que buscamos estiver escondido no dia de hoje
Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos
Acolhamos já este detalhe de Marcos que nos põe num
bom lugar, Jesus não deixava falar os demónios, seja lá o que isso for, porque
o conheciam. Nós queremos desde já dizer a Marcos: Marcos não são só os
demónios que O conhecem. Nós queremos acolher este piscar de olho de Marcos…
aqueles que nos parecem mais distantes sabem quem é Jesus eu também quero
dizer-Lhe que sei quem Ele é, que O conheço.
E possa este detalhe colocar-nos num bom lugar, no
lugar daqueles que estão convencidos e convictos que estão no caminho do
conhecimento de Jesus, buscamo-Lo!
E isto vai ser importante para saborearmos os
parágrafos que foram servidos neste I capítulo de Marcos.
"Onde buscamos Jesus? Onde buscamos Deus? Óbvio
que não há uma resposta certa e uma resposta errada. Cada um sabe onde o busca
e cada um não sabe onde o busca.
Buscamo-lo com bússola e sem mapa e às vezes com mapa
e sem bússola e sem direcção. Encontramo-Lo em tantos lugares,
alguns deles tão improváveis, em tantas circunstâncias, em tantas pessoas e se
calhar só sabemos desenhar o mapa olhando para trás e vendo a presença Dele.
Se calhar não nos atrevemos a dizer onde é que Ele
está no futuro. Onde buscamos Jesus? Onde buscamos Deus?
Escutávamos um parágrafo precioso do Livro de Job,
qualquer palavra minha acrescentada a este texto perturba, e ruído. Se
vos parecer bem, talvez se o confinamento vos oferecer mais tempo, não sei se
isto é verdade, possa o Livro de Job ser uma possível leitura, assim de fio a
pavio. O texto que nós escutávamos do Livro de Job, Job está a falar com os
seus amigos, vamos chamar amigos, porque lendo o texto distanciamo-nos do Livro
de Job. Os amigos de Job vêm dizer-lhe que todo aquele sofrimento se justifica
porque ele se portou mal e, portanto, segundo a teologia da retribuição Deus
tem que castigá-lo. E se não foi ele a fazer o mal foram os filhos ou foram os
pais, ou foram os avós ou os bisavós, até à quinta geração alguém fez mal e,
portanto, Job aguenta, amanha-te Deus quer isso para ti. E nós estamos numa
posição privilegiada, o narrador deu-nos a conhecer que Job não fez nada de mal
na vida dele. Vamos isto é uma história... E Job está a transpirar a sua
revolta e a sua ira, está a lamentar-se e a pôr cá para fora o sofrimento que
sente de tanto sofrimento sem razão. E sim, Job também está à procura de Deus e
não o encontra no sofrimento, no sofrimento do inocente ela não o
encontra.
Neste texto ele está perdido, quantos de nós já
passamos por aquele parágrafo. Quantos de nós na nossa busca, na nossa busca
amorosa de Jesus, ficamos despistados com a morte, com o sofrimento, com o
sofrimento de quem amamos, com o sofrimento atroz daqueles que para nós são
inocentes, e são inocentes de facto.
Onde buscamos Jesus e onde o encontramos?
Paulo neste breve parágrafo da primeira carta aos Coríntios, capítulo XIX também dá conta do seu quotidiano, das suas escolhas, isto para mim de anunciar o evangelho é a minha vida e fiz tudo por isto, fiz-me fraco com os fracos para não deixar ninguém para trás. Onde buscamos Jesus e onde o encontramos?
Marcos neste parágrafo, colocando Jesus, temos que voltar à semana passada, Jesus estava na Sinagoga, sai da Sinagoga, vai a casa de Simão, levanta a sogra, está por ali, todos os que O conhecem, apresentam-lhe todos os doentes, Jesus e ergue todos os que pode. Jesus ergue, ergue, liberta, liberta...
Vai dormir, acorda cedo, vai para um lugar ermo em
diálogo com Deus, é encontrado por Simão, está toda a gente à tua espera...
(vedeta pop star)
Vamos para outro lugar, vamos embora, vamos andar por
outras aldeias.
É-nos servido neste texto a vida do dia a dia de
Jesus, o quotidiano de Jesus.
Talvez possa estar aqui a resposta à nossa pergunta, onde é que buscamos Jesus e onde é que o encontramos?
Marcos talvez nos queira dizer, querido leitor, talvez
aquilo que tu buscas, talvez aquilo que mais anseias esteja no dia de hoje.
Se calhar os teus maiores anseios e o teu maior sonho
começa já no dia de hoje e já está escondido no dia de hoje e já sentes o
perfume daquilo que buscas no dia de hoje.
Marcos quer-nos reconciliar com o quotidiano, com o
dia a dia e por isso apresenta-nos detalhes tão comedidos... houve um exegeta
até que disse que o milagre de curar a febre da sogra de Pedro, é um milagre
desperdiçado... curar a febre? A febre passa! Pois, Marcos quer este detalhe no
seu texto.
Ele interessa-se até pela tua febre, que é o princípio
da fragilidade, que é um alerta a dizer que não está tudo bem, até com isso Ele
se preocupa.
Acolhamos hoje os detalhes do quotidiano e porventura abracemos esta frase: TALVEZ AQUILO QUE NÓS BUSCAMOS SE ENCONTRE NO DIA DE HOJE!
Nós habitualmente falamos do conceito de felicidade é possível que o conceito de felicidade se aproxime do conceito de descanso. Sim porque quando nós sonhamos a felicidade, estamos atulhados com tantos afazeres, quem tem filhos sabe melhor que eu, quem tem dois trabalhos, sabe melhor que eu, quem não tem tempo livre sabe melhor que eu, sim aquilo que sonhamos ser felicidade muitas vezes aproxima-se do nosso conceito de descanso.
O cristianismo não nos oferece descanso, mas oferece-nos um cansaço muito feliz! A sogra de Pedro viu-se curada e pôs-se a servir, porventura percebemos que isto de erguer pessoas era o modo de ser feliz de Jesus, era o modo de ser feliz cansado.
Cansava-se a erguer, cansava-se a libertar, cansava-se
a dar importância, a olhar nos olhos, a tocar. Por gente que era desprezada
pela religião, pelas instâncias políticas, pelas instâncias administrativas.
JESUS FAZIA COM QUE CADA UM SE SENTISSE ÚNICO e casava-se assim, era feliz
assim e deixou-nos esse caminho de felicidade. E esse caminho de felicidade
acontece no dia de hoje.
Reconciliemo-nos com o dia de hoje, digamos uns aos
outros que o quotidiano é o nosso espaço de Salvação, o mesmo é dizer, é o
nosso espaço onde somos salvos da mesmidade, de ficarmos na mesma. É o espaço
onde nos transformamos, é o espaço onde nos ERGUEMOS, é o espaço onde nos
CONVERTEMOS, precisamos uns dos outros, talvez só precisemos do dia de hoje e
de dizermos isto em cada dia, talvez assim vamos afastando a imagem de Deus
super-herói, do Deus cheio de superpoderes, talvez assim nos vamos
reconciliando com o registo que Jesus amava, que não era o extraordinário, que
não era o fantástico, que não era o sobre a natureza, era um registo que nos
deixa desarmados: O dia de hoje ao alcance do braço, olhos nos olhos como
interesse genuíno em que te levantes, te ergas, que sejas do meu tamanho, que
sejas quem tu és.
Que possam estes textos devolver-nos a paixão
do cristianismo, a paixão de seguir Jesus, possam estes reconciliar-nos
com o dia de hoje, o dia que foi feito para que tu não fiques na mesma.
(e se o que buscamos estiver escondido no dia de hoje? | breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Domingo Comum V B transmissão online, Lisboa, 6 de fevereiro de 2021 | Job 7,1-7; 1 Coríntios 9,16-23 e Marcos 1,29-39.)

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