O caminho original dos facilitadores de recomeços

Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos 

Nós, particularmente neste tempo de preparação do Natal a que nós chamamos Advento, insistimos na imagem do recomeço, mas vamos, não é uma novidade, a experiência cristã recorda-nos isto a cada passo, eu costumo dizer, pode parecer uma frase abusada, valia pena falarmos sobre isto. Mas o Cristianismo é possível que seja a única religião do mundo que te permite recomeçar, e esta frase não serve para nos compararmos e para vermos quem é que é melhor, esta frase é um estímulo a cada um de nós a não trairmos o sonho de Jesus, o mesmo é dizer, sempre que nós não damos uma possibilidade de recomeçar, sempre que nós nos esquecemos que podemos recomeçar, em rigor traímos o sonho de Jesus.

Jesus, no seu tempo, àqueles que se sentiam escravos da lei, àqueles que se sentiam excluídos da religião, o mesmo é dizer, excluídos da vida social, Jesus é um grito, é um escândalo, porque permite recomeçar, porque permite reintegrar. 

E nós queremos que isto seja verdade com as nossas escolhas, com os nossos gestos, com as nossas palavras, queremos que a experiência cristã continue a ser assim, uma possibilidade de recomeço. 

E se dizemos que o importante é esse recomeço, recordamos que o importante não é a meta, não é a chegada, o importante talvez seja dispor-se a partir, dispor-se a recomeçar, dispor-se a um êxodo, a palava grega êxodos é um caminho para fora, literalmente é assim que o podiamos traduzir. Dispor-se a um caminho para fora, dispor-se a viver em caminho. E o que é que o caminho, que é uma imagem muito sugestiva também particularmente nos tempos de Advento, e o que é que o caminho nos oferece?

O caminho não oferece a certeza de uma meta, até porque o caminho tem muito de previsível e tem outro tanto de imprevisível, tem outro tanto de surpreendente. Supõe escolhas, direção e, portanto, pode dar-se que o caminho não seja a fatalidade de uma meta e de um ponto previamente estabelecido.

O que o caminho nos oferece é a promessa de uma mudança, a promessa de não ficarmos no mesmo sítio e porventura o caminho é a promessa de uma originalidade. O meu caminho é diferente do teu e o caminho que percorremos é absolutamente singular.

O que é que poderá ser isso de endireitar caminho caminhos? Escutávamos neste pórtico do evangelho de Marcos, a ser o evangelista que nos vai acompanhar ao longo de todo este ano.

Hoje inaugurávamos assim também abruptamente, aqui vinha a melhor parte. Que eram as primeiras palavras de Jesus, mas em todo o caso inauguramos o evangelho de Marcos com esta insistência em endireitar caminhos.

Porquê endireitar o caminho? Os caminhos tortuosos são um desafio para atletas endireitar caminhos, tornar caminhos planos, como dizia o evangelho na pregação de João, é no fundo possibilitar que até quem anda de cadeira de rodas possa percorrer esse caminho.

Endireitar o caminho significa facilitar, significa tornar o caminho acessível a todos e se a experiência cristã é um caminho, em certa medida o que está escondido nesta frase é que a experiência cristã não é só para atletas, não é só para quem se sente preparado. A experiência cristã é uma experiência de integração, é uma experiência de facilitação, na medida em que o caminho está acessível a todos e queremos tornar esse caminho acessível a todos. 

Se o caminho não é só para atletas, se o caminho é para facilitadores, acolhamos a primeira leitura era o que Isaías animava exilados, gente que estava cativa em Babilónia,

Babilónia ameaçava ruir porque Ciro, o Rei da Pérsia, estava em constante ascensão e ameaçava o Império Babilónico e por isso havia a promessa do povo e Isaías animava os exilados, e em certa medida era um facilitador, em certa medida era um endireitador de caminhos.

Pedro animava perseguidos, João o Batista, aquele que muitos reconheciam como profeta e já há mais de quatro séculos que o povo não reconhecia em ninguém esse carisma, essa missão, João inventou aquele gesto de, no Jordão, ajudar a recomeçar. Reconheciam os seus erros, dizia a tradução de Frederico Lourenço, nos gestos de João o Batista às multidões era um gesto de recomeço. Era um gesto facilitador e de recomeços. 

E tu, e eu como vamos preparar o caminho? Como vamos endireitar o caminho?

E tu, e eu como é que vamos preparar o Natal? Que bem podemos traduzir como A SURPRESA.

Cada um saberá o que fazer com este texto, cada um saberá que caminho e como endireitar e como facilitar. 

Queremos ter esta certeza no coração, que somos facilitadores e porventura queremos fazer dos verbos típicos do advento, aqueles que saboreávamos no domingo passado: esperar e vigiar. Recordávamos que estes verbos ganham outro sabor quando por exemplo nos lembramos de um recém-nascido. ESPERAR E VIGIAR são verbos cheios de ação na hora de cuidar. São verbos de cuidado. Cada um saberá o que fazer com estes verbos a quem está mais próximo, queremos que das nossas escolhas, dos nossos gestos, das nossas palavras, queremos que saia um sussurro ao ouvido dos nossos mais próximos: Advento-te, Advento-te, Espero-te, Cuido de ti, Espero por ti!

É porventura aquilo que escutamos no coração ao longo deste caminho, ao longo do caminho da vida inteira, há um Deus que te ADVENTA, espera por ti, que cuida de ti, te permite recomeçar.

Segredemos uns aos outros em gestos e em palavras de cuidado: ESTAMOS PERTO!

(o caminho original dos facilitadores de recomeços | breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Domingo II Advento B | transmissão online, Lisboa, 5 de Dezembro de 2020. | Isaías 40,1-11; 2 Pedro 3,8-14 e Marcos 1,1-8.)

https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2020/12/05/o-caminho-original-dos-facilitadores-de-recomecos

 

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