Será possível falar de crescimento sem falar de ausências?


 Querias irmãs, queridas amigas

Não sei se abuso ao dizer que é inevitável que o nosso coração neste dia conheça sentimentos aparentemente  opostos, por um lado sentimos tristeza e vazio, por não termos connosco quem amamos, quem já morreu, quem desapareceu. É uma ferida que não sei se chega algum dia a ser cicatrizada, é um vazio que nunca chega a ser preenchido de novo, é uma ausência que permite fazer eco a vida inteira. 

E nestas ausências hoje lembramos as vossas irmãs em primeiro lugar, lembramos os vossos amigos e benfeitores, os vossos familiares, aqueles e aquelas que trabalham convosco, que constroem o vosso projeto juntamente convosco e hoje também de modo particular, que quase não conhecemos, aqueles que ao longo destes meses, desde março,  que morrendo as famílias nem pedem despedir-se deles. Unimo-nos à tristeza tão grande que nos circunda e juntamente com tristeza é possível que habite nesta hora um sentimento de alegria, sendo que o contrário da alegria não é a tristeza. E sim, alegria porque queremos dizer uns aos outros que estamos gratos, muitíssimos gratos por sermos feitos de muitos, por sermos feitos de muitas e por uma multidão ter deixado sinais no nosso coração portas abertas, caminhos abertos, olhos abertos. Sentimos verdadeiramente neste dia que somos feitos de muitos e que esses muitos amados são para sempre, são para sempre! 

Talvez por isso ecoe o grito do cântico dos cânticos Mais forte do que a morte é o amor é o amor e nada é capaz de apagar o amor. História alguma, ausência alguma é capaz de apagar o amor. E sim, hoje celebramos amorosamente aqueles que já não estão connosco e hoje repousamos no silêncio do nosso coração aqueles que amorosamente veem Deus face a face. Naqueles que acreditamos amorosamente que já sabem o que é Deus ser tudo em todos. 

Queremos hoje repousar o olhar e o coração Naquele em que acreditamos. Assim como Mateus descrevia nesse desabafo de Jesus, Ele que tinha acabado de ser rejeitado Pelos mais prováveis, pelos maias instruídos, pelos líderes religiosos. Depois de se sentir rejeitado, depois de se sentir que aquilo que tinha para oferecer não era para eles  irrompe este desabafo do seu coração dizendo que: vamos começar pelos mais pequenos, vamos começar pelos últimos e sentimos que esta obsessão de Jesus se concretizou na su vida depois deste desabafo.

Juntou e gastou-se em juntar e falava de um reino estranho, de um banquete estranho, onde queria reunir todos: "um só rebanho sob um só pastor"! 

Queremos que este encontro amoroso oriente a nossa bússola e oriente os nossos mapas é para esse banquete que caminhamos. Hoje juntamo-nos àqueles que já sabem que alegria essa que nos está reservada e queremos que isso também concorra para olharmos o que está por fazer.

Quando Job no desabafo que escutávamos dizia que é na minha carne que eu verei a Deus, sintamos que esse encontro face-a-face, o antecipamos na nossa carne, antecipamo-lo no nosso corpo, antecipamos naquilo que somos uns para os outros, no rosto que somos uns para os outros, na originalidade que somos uns para os outros, na santidade que somos uns para os outros.

Sintamos que o dia que hoje celebramos faz mais sentido, se não só juntarmos aqueles que já partiram como aqueles que ainda estão connosco, os que estão connosco, aqueles que sofrem a ausência connosco e se alegram com a mesma gratidão de nós.  Sintamos que o dia de hoje é um estímulo à unidade, unimo-nos àqueles que veem Deus face-a-face, àqueles que nos fazem falta e lembramos que essa tarefa de unidade começa já com o nosso corpo, uns com os outros.


(será possível falar de crescimento. sem falar de ausências? Fiéis Defuntos 2 nov 2020 - breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Irmãos Ausentes | Lisboa, 2 de Novembro de 2020. Job 19,1-27; 2 Coríntios 4,14 – 5,1 e Mateus 11,25-30. 

https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2020/11/02/sera-possivel-falar-de-crescimento-sem-falar-de-ausencias/

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