Estamos perto
Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos
Que feliz este encontro. Que amoroso este encontro.
Tal como dizíamos na primeira frase reunimo-nos no amor, que amoroso este encontro e juntos recomecemos, juntos saboreemos um recomeço, uma possibilidade de fazer de novo, uma possibilidade de começar.
E que oportuno é a pedagogia do tempo litúrgico, que oportuna é, oferecer-nos um Tempo Novo para fazermos deste tempo uma Vida Nova, com gestos renovados, com escolhas renovadas, com palavras repensadas e renovadas.
Abracemos este convite do Advento a nos reconciliarmos como dia de hoje, com o agora, com o tempo que nos é oferecido, só com ele é que fazemos coisas novas, só com o dia de hoje.
Sim, com as cicatrizes do passado, com a história de que somos feitos sim, com as nossas fantasias e projeções no futuro, mas a renovação do tempo só acontece agora.
O Advento vem lembrar-nos que nós habitamos uma ambiguidade, a palavra ambiguidade, habitualmente carrega um peso dramático, habitualmente traduzimos ambiguidade também por uma espécie de hipocrisia, de mentira. Mas sem ambiguidade nós não conseguimos falar de nós próprios e sem ambiguidade nunca compreenderemos o real, porque o real não tem uma leitura, porque a nossa vida não é uma coisa e sim, somos feitos também de ambiguidade.
Edgar Moran ajuda-nos a reconciliar-nos com este termo, com a ambiguidade e com a complexidade e sem esses dois termos talvez não consigamos falar de conceitos, talvez não consigamos falar da realidade.
E o Advento vem lembrar-nos uma ambiguidade que nós habitamos, o cristianismo já aconteceu e é por isso que nos encontramos aqui todas as semanas, o cristianismo já aconteceu, já deu sentido à história, já deu sentido à história de cada um e o cristianismo esta por cumprir e o Advento vem lembrar-nos esta ambiguidade de um cristianismo já e de um cristianismo ainda não. Esta é a condição da nossa experiência cristã, vivemos entre um já e um ainda não e é aí que jogamos o tempo presente
É neste tempo em aberto, é este tempo em aberto que queremos abraçar de modo simbólico, durante o Advento e vamos, durante a vida inteira, podíamos bem chamar à vida inteira um Advento. Um Advento desse ainda não que ansiamos.
Queremos saborear sobretudo neste tempo de Advento cristianismo como uma experiência de nascer de novo.
Já alguns se cansaram de me ouvir dizer que o cristianismo e bem possível que seja a única religião do mundo que te permite recomeçar. E esta frase só serve para nos lembrarmos uns aos outros de que sempre que não permitimos que alguém recomece não estamos a cumprir o cristianismo.
O cristianismo é porventura a única religião do mundo que te permite recomeçar e saboreemos comunitariamente esta verdade, O CRISTIANISMO É UMA EXPERIÊNCIA DE NASCER DE NOVO.
E saboreemos isto, a possibilidade de um tempo novo que nos é oferecido como uma experiência de renascimento, como uma possibilidade de nascermos de novo e é isto, podemos traduzir esta experiência de nasce de novo como possibilidade, habitamos a possibilidade. E ao dizermos isto, lembramos que a possibilidade é a garantia de originalidade.
É a possibilidade que permite que tu sejas tudo o que quiseres, que faças o que tu quiseres. E só assim somos santos, cada um à sua maneira.
Só assim podemos falar de liberdade e de santidade, porque falamos de originalidade.
Habitamos a possibilidade e é, neste contexto, que queremos saborear os verbos que nos são servidos no início Advento esperar, aliás a palavra Advento mais ou menos significa isso, ESPERAR E VIGIAR.
Pelo que percebemos da experiência cristã aquilo que nós esperamos, VER DEUS FACE A FACE, quando DEUS FOR TUDO EM TODOS.
Paulo fala da integração do nosso corpo mortal no Corpo Glorioso de Cristo, ninguém sabe o que isto é, mas de facto são coisas grandiosas e que porventura nos deixam em desejo, estimulam o nosso desejo. Pois, a esperança cristã é porventura a antecipação daquilo que nós esperamos. Porque em certa medida, vemos no rosto do próximo, Esse que amamos, Esse que buscamos.
Então a experiência cristã é algo de muito ativo de muito prático, de mangas arregaçadas, é uma antecipação daquilo que nós esperamos. Da JUSTIÇA que esperamos do AMOR PLENO que esperamos, da INTEGRAÇÃO TOTAL que esperamos, pois, a espera e o tempo de Advento vem possibilitar-nos este exercício de anteciparmos aquilo que esperamos.
E a VIGILÂNCIA porventura não é outra coisa se não lucidez, se não um apuramento de sentidos para estarmos prontos para cuidarmos melhor.
Não é por trabalhar na maternidade Alfredo da Costa, mas a imagem da incubadora e do recém-nascido e porventura do prematuro, é onde estes dous verbos ganham uma luz diferente, ESPERAR E VIGIAR, são os verbos que nos permitiram desde o primeiro dia sobreviver, são os verbos do cuidado primeiro, é a tarefa dos paus de um recém-nascido, vigiar e esperar e vão dizer aos pais de um recém-nascido que esperar é uma pasmaceira, vigiar e esperar, nestes dois verbos encerram-se todas as canseiras do cuidar.
ESPERAR e VIGIAR, acolhamos estes verbos como verbos do cuidado, verbos de cuidar.
Assim, olhemos o evangelho que Marcos nos serve no capítulo XIII, Marcos vai ser nosso companheiro de viagem ao longo deste novo ano, este Ciclo B da Liturgia, olhemos este texto sem medo, o medo não faz nada connosco, porventura faz o que é pior de se fazer, que é não nos deixar viver. Sem medo olhemos este texto e percebamos que é um texto que Jesus diz aos seus discípulos, que Marcos escreve aos seus leitores, para nos devolver o agora, para nos encher de entusiasmo, devolve-nos o agora e devolve-nos os dois verbos que precisamos para cuidar. O verbo Vigiar e Esperar.
Acolhamos este texto como uma devolução do agora, como um exercício de lucidez e de antecipação daquilo que esperamos e por isso com a ajuda deste texto e com a ajuda deste tempo de Advento, que e porventura a nossa condição a vida inteira, queremos apressar, a tornar pleno o agora. O tempo de hoje, o tempo de agora.
Queremos apressar-nos a tornar este tempo pleno e bem sabemos o que é que não deixa que este tempo seja pleno, isto que nesta hora trava o coração, isto que nesta hora te pesa. Apressemos os nossos exercícios de reconciliação uns com outros.
Apressemos a aproximação uns dos outros, daqueles que estão mais esquecidos e daqueles que estão mais distantes.
Apressemos o conhecimento do outro, o conhecimento da diferença, o conhecimento daqueles que mais desprezamos.
APRESSEMOS O CUIDADO E ESTAREMOS A VIVER O ADVENTO.
Gostava de terminar esta inauguração deste tempo um breve texto, um poema de Paul Celan, a tradução deste poema Tenebrae de 1959 é de João Barrento e chegou até nós pelas asas de um anjo, da Cristiana Vasconcelos Rodrigues, aqueles que andam próximos do Aquele que habita os céus sorri, vão andar com este texto ao longo deste Advento inteiro, talvez porque seja tão luminoso ao lembrar-nos que ESTAMOS PERTO.
Estamos perto, Senhor,
perto e ao alcance da mão.
Já tua mão nos prende, Senhor,
estamos presos um ao outro, como se o corpo de cada um de nós fosse o teu corpo, Senhor.
Reza, Senhor,
reza para nós,
estamos perto.
Fizemos o caminho contorcidos
fizemos o caminho para nos curvarmos
sobre o vale e sobre o lago.
Íamos ao bebedouro, Senhor.
Havia sangue, era
o que tu derramaste, Senhor.
Brilhava.
Lançou-nos nos olhos a tua imagem, Senhor.
Olhos e boca tão abertos, tão vazios, Senhor.
E nós bebemos, Senhor.
O sangue e a imagem que estava no sangue, Senhor.
Reza, Senhor,
nós estamos perto.
(I dom Advento - Estamos perto | breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Domingo I Advento B | transmissão online, Lisboa, 28 de Novembro de 2020. | Isaías 63,16-19;64,2-7; 1 Coríntios 1,3-9 e Marcos 13,33-37.)
https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2020/11/28/estamos-perto/

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