Curas quando devolves semelhança


Queridas irmãs, queridas amigas

Acolhamos este parágrafo do capítulo V de Lucas como alimento, como alimento do nosso dia, como alimento da nossa vida.

Por uns instantes manifestemos a nossa disponibilidade para acolher este texto como se fosse pela primeira vez. 

É possível que numa altura da nossa vida, porventura numa fase mais inicial nos maravilhássemos com as curas de Jesus e romantizássemos. Jesus manifesta-se como ser extraordinário, compadecido por pequenos e por últimos e por isso eu O sigo e isso me basta, e por isso eu ponho-me atrás dos seus passos e porventura uma leitura deste texto poderá contentar-se com esta leitura romântica de um Jesus que faz coisas bonitas e eu ponho-me atrás Dele, (e sejamos Jesus).

Este texto é uma grande provocação para nós porque apesar de ser muito cândido, até em palavras que Lucas escolhe para colocar na boca daquele leproso, com muita gentileza  neste texto converge aquilo que pode ser a grande abstração sobre a vontade de Deus.

Este homem é um leproso era a vontade de Deus, assim era a leitura religiosa das doenças, e isso também grassa em todas as tradições religiosas, quando se olha para a doença como tendo origem em Deus, e é fácil ver nela um castigo quanto mais pesada o é, a vontade de Deus neste texto é que aquele leproso morra e morra longe do povo, porque a lei, e a lei era a lei de Moisés, era tida como a lei de Deus, previa que aquele homem se afastasse do povo e  morresse longe, e com razões para sofrer e para morrer longe porque, se tinha uma doença daquelas, alguma coisa teria feito, alguma coisa teria feito.

E essa pergunta disponível  a vontade de Deus clarinha, no entendimento daquela gente... E aquela gente também somos nós. E vemos neste texto tão cândido a diferença da vontade de Jesus.

Jesus descola-se da vontade abstrata de Deus, que habitualmente serve-nos, dá-nos jeito, para nos justificarmos e para nos distinguirmos. Jesus separa-se do discurso abstrato sobre a vontade de Deus e disruptivamente apresenta a sua vontade, e a sua vontade é um escândalo. Se nesse dia Jesus se lembrasse de ir a Jerusalém para entrar no Templo, já não podia, tinha de mudar de planos.

Jesus ao tocar num leproso, porventura terá mesmo contraído a lepra, considerado o alto contágio da doença, ao tocar num impuro Jesus torna-se impuro. Naquele dia Jesus teria de cumprir o rito de purificação para regressar ao estado puro se, se conseguisse livrar da doença.

O que é que isto tem que ver connosco? O que é que isto tem que ver connosco? 

Nós que não queremos ficar pela leitura romântica deste texto, 

Nós que não sabemos o que é a cura de doenças físicas, 

Nós que não sabemos curar doenças físicas,

Nós que olhamos para estas curas e com muita distância, como é que Deus curava biologicamente e hoje não cura?

A grande cura operada neste texto é biográfica, JESUS TORNA AQUELE HOMEM UM SEMELHANTE! 

Aquele homem que por vontade do povo e por vontade de Deus era um último, era segregado, era um expulso, Jesus converte- o em semelhante. Toca-o, torna-se ele próprio impuro, ergue-o, torna-o e dá-lhe condições de possibilidade de voltar ao Templo. Naquele dia aquele leproso pode ir ao Templo e Jesus não pode. E isto tem muito a dizer-nos, e sobretudo a quem acha que sabe qual é a vontade de Deus. 

É muito frequente na nossa tradição e em muitas tradições religiosas interpretarmos a vontade de Deus e gerarmos inferiores e gerarmos impuros e a nossa tradição gera muitos impuros sobretudo quando se pronuncia sobre a forma como as pessoas amam, e este texto tem que nos trazer algo de difícil digestão porque mais do que um texto romântico de um Jesus com superpoderes, este texto questiona-te a ti, quantos leprosos tu geras e quantos leprosos tu curas? E quem são os leprosos? E qual é a vontade de Deus que tu sabes? E qual é a vontade de Jesus? 

Possa este texto queimar-nos por dentro,

Possa este texto apresentar-se vivo nesta semana de Epifania que dura a vida inteira.

Queremos integrar esta verdade que celebramos nesta semana um Deus que se manifesta na nossa carne, nas nossas fragilidades, nas nossas cicatrizes, nas nossas feridas, e queremos questionarmos pessoal e comunitariamente, que sou eu para dizer qual é a vontade de Deus e quem sou eu para fazer diferente da vontade de Jesus?

(curas quando devolves semelhança – sexta depois da Epifania - breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade  | Lisboa, 7 de Janeiro de 2022. - 1 João 5,5-13 e Lucas 5,12-16.)

https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2022/01/07/curas-quando-devolves- semelhanca/

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